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Escravizados pelo prazer: Como o hedonismo nos tornou subservientes...

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Diante dos acontecimentos recentes duas obras literárias têm sido amplamente citadas: “Admirável mundo novo” (1932), de Aldous Huxley, e “1984” (1949), de George Orwell. Ambas são obras que descrevem sociedades distópicas, prenunciando, pois, tempos sombrios de servidão e de eliminação da liberdade e da individualidade.

No entanto, há algumas diferenças fundamentais entre as obras. Enquanto George Orwell estava preocupado com o advento de um poder opressor, cerceador e intimidador, Huxley talvez tenha sido mais sagaz em sua visão de futuro. Ainda que tenhamos modelos similares aos descritos por Orwell em regimes como o chinês, nas democracias ocidentais, por outro lado, parece-me que vige um aspecto interessante da visão de Huxley: a promoção da hedonia.

Noutros termos, a submissão não mediante a opressão de um estado quase onisciente, mas a partir do fomento ao hedonismo.

Ou seja, enquanto na China as pessoas são oprimidas pela imposição da dor, do sofrimento, nas sociedades ocidentais (supostamente “livres”) somos controlados, escravizados, pela imposição do prazer. Parece algo aparentemente sem sentido, não? Afinal, o prazer parece algo bom por si mesmo.

Quem ousaria, em nossas sociedades “livres”, “democráticas”, questionar o prazer, não é mesmo?

Desse modo, há um fato sobre a natureza humana que deve ser levado em conta de largada: somos motivados fortemente pelas distrações oferecidas pelos prazeres vulgares.

Quem precisa ser educado para buscar pelo prazer?

Como pai sei que meus filhos, desde o início de suas vidas, buscam instintivamente pelas satisfações de seus sentidos. É preciso uma rigorosa educação para que eles compreendam que não são meros animais sencientes, isto é, que eles são capazes, diferentemente dos nossos cães, de obter o prazer de forma inteligente.

Ou seja, que são capazes de liberdade. Mas é necessário que os eduquemos para a humanidade (e para a liberdade), o que envolve fazer com que eles se apercebam da importância das virtudes para sua plena realização enquanto humanos. Citemos, aqui, apenas as virtudes cardeais: ‘justiça’ (assegurar a cada um o que lhe é devido), ‘prudência’ (sabedoria prática), ‘temperança’ (autodomínio) e ‘coragem’ (fortidão).

Tais virtudes, cabe observar, não foram inventadas. Pesquisas na área da antropologia evolutiva têm demonstrado que elas “brotaram” da natureza humana para que pudéssemos evoluir humanamente. Somente posteriormente encontramos sua versão sistematizada, por exemplo, na filosofia grega. Mas o fato é que somente nós, humanos, somos virtuosos, pois as virtudes, o agir virtuoso, fazem parte de uma vida humanamente realizada, bem como livre.

Nossa humanidade, e liberdade, se manifesta, por exemplo, quando somos temperantes e exercemos o autodomínio, bem como quando somos corajosos, fortes, na resistência diante dos vícios.

Mas sobre os vícios, vejamos primeiramente um exemplo banal, aquele relacionado ao prazer obtido mediante a alimentação. Hoje sabemos que a obesidade é causa de um aumento significativo da morbimortalidade. Trata-se de uma doença crônica que tem crescido exponencialmente nas últimas décadas, a qual aumenta o risco de morte prematura e de outras doenças graves que, ainda que não levem ao óbito, são debilitantes e degradam a qualidade de vida. Certamente ela tem causas multifatoriais. Há aspectos genéticos e metabólicos influentes na causação da obesidade.

No entanto, ela também envolve elementos comportamentais e culturais. Dessa maneira, quando pesquisamos a literatura sobre a obesidade sempre encontramos que um dos principais fatores envolvidos é o alimentar. No passado muitos culpavam sua glândula tireoide pela obesidade. Mas o fato é que principal causa está enraizada em nossa busca pelo prazer (pela gratificação). Com isso retiramos o prazer de seu contexto de inteligibilidade e fazemos escolhas erradas, as quais causam danos, muitas vezes irreversíveis, à nossa saúde.

Ou seja: ainda que possamos ter prazer na alimentação, esse prazer pode ocorrer em um contexto que lhe confere inteligibilidade, como quando nos alimentamos de forma prazerosa e saudável (fomentando a vida, um bem fundamental).

O mesmo poderia ser dito sobre outros prazeres, como aqueles ligados à sexualidade. Não obstante, o que quero, agora, é apenas tecer algumas breves considerações motivadas pelo atual debate em torno do projeto de lei que estimula a produção em escala industrial da maconha (cannabis sativa), o PL399/2015.

Primeiramente, é preciso desfazer alguns mitos ainda vigentes e fomentados na mídia, no meio acadêmico, artístico, etc. Um deles insiste que, como se trata de uma planta (cannabis sativa), ela é inócua. Assim, que mal poderia haver em seu consumo, certo?

Pois bem. As mais danosas drogas consumidas atualmente são “naturais”, oriundas de plantas: crack, cocaína, heroína, ópio e, claro, maconha.

Outro mito nos diz que a maconha é uma droga “inofensiva”, que não conduz a um agravamento do vício. No entanto, segundo o escritório das nações unidas sobre drogas e crime (UNDOC), 83% dos dependentes de crack e heroína começaram com a maconha, a qual, aliás, segundo dados da fundação britânica de pneumologia, causa mais câncer de pulmão em seus usuários do que o tabaco.

Os partidários do uso “recreativo” da maconha também costumam mascarar suas pretensões sob a edulcorada expressão “uso medicinal da maconha”. No entanto, a maconha não é medicinal.

Há um debate sobre o possível uso medicinal de apenas uma de suas substâncias, o canabidiol. Mas nem o uso dessa substância é conclusivamente medicinal, como declarado recentemente (24/08/2020) em uma nota da Associação Brasileira de Psiquiatria (e por pesquisadores na área da farmacologia).

Mas, mesmo que seja útil do ponto de vista medicinal, ele o será apenas em pouquíssimos casos, como nos de epilepsia em que os doentes já não respondem aos demais tratamentos. Além disso, o canabidiol já é comercializado pelo laboratório Prati-Donaduzzi, tendo sido liberado pela ANVISA em abril do corrente ano.

Assim, se a preocupação é realmente com a saúde pública, por que a pressa em liberar sua produção a partir do PL 399/2015, o qual está tramitando atualmente no congresso e assegurará, se aprovado, a produção em escala industrial da maconha, facilitando o acesso a ela?

Qual a razão para a produção em escala industrial de algo já produzido e necessário apenas para poucos casos?

De qualquer maneira, o que quero enfatizar é um aspecto comum presente nos casos referidos acima, o qual pode ser compreendido a partir de um termo altamente esclarecedor: “dependência” (vício). Portanto, seja no consumo desregrado de alimentos seja no uso da maconha, o que temos é o oposto da liberdade: trata-se de dependência. E por essa razão falamos, apropriadamente, em: “vício em comida”, “vício em bebida”, “vício em drogas”, “vício em redes sociais”, “vício em eletrônicos”, “vício em sexo’”, etc.

Todos esses vícios representam o oposto da liberdade. Em todos buscamos por algum tipo de “recompensa” prazerosa, mesmo que saibamos dos danos que tais vícios causam em nossas vidas. Ainda sobre a maconha, a ciência é clara sobre seus danos à saúde. Ela causa: falha de memória, psicoses (das quais se destaca a esquizofrenia), déficit cognitivo (estudos mostram que ela causa redução do QI), paranoia, síndrome amotivacional, para nomear as que mais aparecem em pesquisas científicas. Sem falar nos problemas sociais: fracasso educacional, baixa renda, desemprego, necessidade de auxílio estatal (portanto, de mais estado), etc.

Embora existam muitos estudos demonstrando os dados acima, aqui recomendo especialmente aqueles conduzidos por David Fergusson.

Assim, todos os vícios se opõem à liberdade, nos tornando facilmente subservientes ou, ainda, escravos. Por essa razão penso que a distopia entrevista por Huxley está diante de nós. Não foi necessária a criação de um sistema como aquele descrito por Orwell para que entregássemos a nossa liberdade, a nossa autonomia. Nossa civilização entregou alegremente sua liberdade, bem como sua capacidade de pensar, de deliberar.

O regime nazista queimou livros para que as pessoas não os lessem. Hoje, imersos em prazeres vulgares, sequer buscamos a leitura. Enquanto na china comunista as pessoas não têm acesso a informações, recebemos uma profusão quase ilimitada de informações pelas redes sociais, em sua maioria irrelevantes.

Estamos mais preocupados com “curtidas” do que com o conteúdo informativo. Isso ocorre porque o mesmo sistema de “gratificação” acionado em nossos cérebros pela cocaína é acionado em “dependentes de Facebook”. Por essa razão já existem, no Brasil, institutos como o Instituto Delete, voltado para o tratamento de pessoas com dependência tecnológica. Sim, “dependência”. Ou seja, o oposto da liberdade.

Mediante a imposição exacerbada de prazeres nossa cultura nos transformou em egoístas narcisistas patológicos, desapegados da verdade (conhecimento) e focados quase exclusivamente nos prazeres ordinários. Abandonamos nossa liberdade e, consequentemente, nossa humanidade. Nossos vícios nos tornaram escravos.

A descrição de Aldous Huxley já não é uma mera distopia: é o nosso admirável mundo novo, do qual só sairemos a partir de uma vida virtuosa e, portanto, livre.

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Carlos Adriano Ferraz

Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), com estágio doutoral na State University of New York (SUNY). Foi Professor Visitante na Universidade Harvard (2010). É professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), bem como membro do Docentes pela Liberdade (DPL) nacional e diretor do DPL/RS.

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