A história se repete, de novo

O barco começa afundar, os ratos abandonam a embarcação e os piratas ficam à deriva, sem botes salva-vidas. Em 1929/1930 quando Getúlio Vargas (ex-ministro de Washington Luiz) comandou um golpe contra o governo, aconteceu uma debandada generalizada. Muitos ex-governistas se tornaram novos-governistas, outros foram exterminados e uma nova ordem governamental se constituiu. Em 1945 a história se repetiu, e se repetiria novamente em 1964.


Na década de 1980 os ex-arenistas (base de sustentação política dos governos militares) se espalharam pelas novas siglas, principalmente as originárias no antigo MDB. Um dos mais aguerridos chefes da extinta ARENA, José Sarney, liderando a “oposição” entrincheirada no PMDB e nas siglas auxiliares, assume a presidência para comandar a “Nova República”. Depois vem a presidência de Fernando Collor de Mello, que seria defenestrado do poder, sendo substituído pelo peemedebista Itamar Franco. Viria após a privataria do governo FHC, o mensalão do governo Lula e o petrolão do governo Dilma.

Uma coisa é inegável: a competência política dos ex-arenistas (originários da UDN e do PSD), que se tornaram peemedebistas, e que comandam este País nos últimos 40 anos. E comandarão por muitos anos ainda.

Agora, enquanto o processo de impeachment (impedimento) contra a presidente Dilma Rousseff (PT) caminha celeremente, quase que de forma irreversível, o PMDB renunciou aos sete ministérios e aos mais de 600 cargos comissionados que tinha no governo. Quer mais, muito mais. Para tanto abandona o barco que afunda, limpando a área para que o vice-presidente da República, Michel Miguel Elias Temer Lulia, presidente nacional do partido, possa planejar os destinos da Terra de Santa Cruz.

De imediato, e discretamente, o vice vai divulgando os nomes dos “conselheiros econômicos” que compõem sua equipe, tradicionais figuras da política nacional. Não quer assustar a classe dominante com novidades. Entre os luminares destacam-se Delfim Netto, homem forte de todos os generais-presidentes no pós-64, colaborou com Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma – agora, semanalmente almoça com Temer, em São Paulo, para discutirem os destinos da economia brasileira;

Marcos Lisboa, economista, ex-secretário de política econômica quando Antônio Palocci era ministro da Fazenda e Henrique Meirelles presidente do Banco Central. Em 2014, na campanha eleitoral, assessorou Aécio Neves na formulação do programa de governo. Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central de FHC (coordenou o programa econômico da campanha de Aécio Neves em 2014) é cotado para o Ministério da Fazenda. Os banqueiros e o PSDB aprovam.

Robert Brant, ex-ministro da Previdência de FHC e redator final do documento “Ponte para o Futuro”, lançado pela Fundação Ulysses Guimarães, e Ricardo Paes de Barros, que atuou na formulação de políticas sociais nos governos de FHC e de Lula, inclusive no “Bolsa Família”, são duas peças importantes.

Um grupo especial (núcleo coordenador, ao que parece) se destaca pela importância que assume na definição do que seria o “Plano Temer”. Moreira Franco, ex-ministro e coordenador da equipe que formulou o documento “Ponte para o Futuro”, proposta inspirada no “Plano Real”, de Itamar Franco (PMDB), e na “Carta ao Povo Brasileiro”, de Lula (PT); senador Romero Jucá (PMDB), velho conhecido da PF, aparece como interlocutor junto ao mercado financeiro. O senador José Serra (PSDB) é o revisor das propostas que comporão o documento final – defende o semipresidencialismo como alternativa para o futuro próximo.

São personalidades bastante conhecidas do povo brasileiro. Daí pode-se prever que as medidas econômicas e sociais serão amargas e impopulares. Entretanto, os articuladores do “governo Temer” concordam, unanimemente, que virão providências duras, mas imprescindíveis para a retomada da economia; que haverá “lágrimas e ranger de dentes”. Afirmam que não há alternativa, mas tranquilizam os partidos dizendo que o Fundo Partidário será reforçado.

Delfim Netto retorna aos tempos do “milagre econômico”, da política de “fazer o bolo crescer para depois distribuí-lo”. Diz ele para os formulares do “Plano Temer”, que “Para fazer crescer o ‘excedente’ é preciso que o investimento líquido cresça e aumente a capacidade produtiva, ou seja, que cresça a oferta de bens e serviços pelo aumento persistente da produtividade do trabalho”. Mas não haverá aumento de salários, em hipótese alguma.

As propostas que delineiam o futuro programa de governo do vice-presidente, se assumir a presidência, preveem, basicamente: a) um Estado enxuto, como determina o Consenso de Washington; b) que deverá haver uma harmonização entre investimento e consumo, considerando a necessidade de investimento líquido; c) que haverá aumento da participação do sistema produtivo no mercado mundial através das exportações, o que exige o aumento do investimento líquido, com o consequente aumento do estoque de capital; d) que haverá crescimento da receita pública e diminuição da despesa do governo; d) que os benefícios dos reajustes concedidos ao salário mínimo serão desvinculados da previdência social.

Várias questões futuras preocupam os planejadores e o vice-presidente: como se comportará o fisiológico PMDB acostumado com cargos, muitos cargos, se o estado diminuir; qual a parcela do butim que será exigida pala “oposição” (PSDB, DEM, PPS e demais partidos da linha auxiliar); e como reagirá o povo quando sentir o tamanho do arrojo econômico e das consequências sociais.

Disse-me um dos colaboradores “menores” do esquema (membro da Fundação Ulysses Guimarães), que o importante agora é não deixar vazar maiores informações quanto ao “Plano Temer”. E arrematou: lembre-se que a nossa conversa é “in off”. Acontece que ele não disse nada que não fosse de domínio público.

Como diz o poeta: “Ah! Esses moços, pobres moços, se soubessem o que eu sei” não apoiariam esses políticos que manipulam o futuro do Brasil. Vinicius Mota, na Folha de S. Paulo, esclarece que “O volumoso conjunto de brasileiros que sai à rua a pedir o fim do governo Dilma tem um encontro marcado com a decepção”. Entretanto, o industrial Pedro Wongtschowski acredita que “Um novo governo teria condições mais amplas de formular e executar um pacto de crescimento para o país”.

A única alternativa que nos resta é esperar para ver o que acontecerá.

LANDES PEREIRA. Economista com mestrado e doutorado. É professor de Economia Política.

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Landes Pereira

Economista e Professor Universitário. Ex-Secretário de Planejamento da Prefeitura de Campo Grande. Ex-Diretor Financeiro e Comercial da SANESUL. Ex-Diretor Geral do DERSUL (Departamento Estadual de Estradas de Rodagem). Ex-Diretor Presidente da MSGÁS. Ex-Diretor Administrativo-Financeiro e de Relações com os Investidores da SANASA.

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