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O colapso de nossas instituições e o declínio civilizacional (veja o vídeo)

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Um dos mais inquietantes flagelos que enfrentamos atualmente é o da dissolução de nossas instituições: casamento, família, escolas, universidades, judiciário, mídia, etc, estão entre as mais vilipendiadas. Tais instituições, que surgiram para proteger valores fundamentais (vida, conhecimento, justiça, etc), não apenas já não os protegem, mas, inclusive, os violam.

Não obstante, não podemos subestimar a importância das instituições, seja para nossa formação individual seja para nossa prosperidade social. Afinal, elas surgiram a partir de móbiles espontâneos com vistas à preservação daqueles valores que assoalharam o caminho para a prosperidade.

Então, nos perguntemos: que ocorre quando tais instituições colapsam?

Com efeito, para que se tenha uma ideia da influência de certas instituições, vejamos uma pesquisa que revela a importância de instituições na promoção do comportamento virtuoso (honesto), a qual é descrita no livro “A mais pura verdade sobre a desonestidade”, do pesquisador Dan Ariely.

Sem embargo, dado que somos capazes de agir virtuosa e viciosamente, são necessários mecanismos que assegurem que viveremos virtuosamente, evitando, dessa forma, o vício e a consequente dissolução social.

No livro de Ariely encontramos pesquisas com dezenas de milhares de participantes. Uma dessas pesquisas é paradigmática: chama-se “experimento da matriz”. Nesse “experimento” foi proposto aos participantes um exercício matemático com 20 problemas, o qual deveria ocorrer dentro de um período cronometrado (5 minutos), o que intencionalmente impossibilitava que ele fosse realizado em tempo (a ideia era que não houvesse tempo mesmo). Além disso, havia um aspecto interessante no experimento, a saber: ao final, logo após serem informados do gabarito, os participantes iam à frente da sala e colocavam a folha em um triturador de papel, dizendo ao examinador do teste quantas questões acertaram.

Sim, eles não mostravam a prova, mas apenas a trituravam e diziam ao examinador o número de acertos. Para cada questão acertada recebiam um valor em dinheiro. Ou seja, o participante ficava à vontade para mentir, trapaceando, ciente de que (supostamente) ninguém, além dele, teria acesso às respostas registradas nas folhas. O avaliador teria apenas sua palavra. Não obstante, no experimento era usada uma máquina de triturar papel adaptada, a qual fazia barulho mas triturava apenas as bordas das folhas. Ou seja, os pesquisadores tinham acesso às respostas dos participantes. Com isso os pesquisadores puderam comparar as respostas dadas oralmente pelos participantes e suas respostas nas folhas (supostamente trituradas). E a ideia era precisamente essa: mensurar a desonestidade dos participantes.

Com efeito, os pesquisadores descobriram que, em média, 70% dos participantes mentiram. Ariely percebeu que as pessoas estão sempre buscando por vantagens, por um retorno rápido com pouco sacrifício. Mas, em geral, elas cometem pequenas trapaças. Por exemplo, ele coordenou o “experimento da matriz” com 40 mil pessoas, das quais apenas 20 foram grandes trapaceiras (‘big cheaters’). Ou seja, de todos elas apenas 20 afirmaram ter acertado as 20 questões. As demais afirmaram ter acertado em torno de 6 ou 7 questões (um pouco acima da média geral de acertos – que girava em torno de 3 questões).

De acordo com Ariely, a maioria dos pesquisados era formada por pequenos trapaceiros, ou, como ele diz, trapaceiros reais (‘real cheaters’). E esse é o problema: como a maioria comete pequenas trapaças, a soma dessas pequenas trapaças causa um impacto social, econômico, moral, etc, de magnitude abrangente e perniciosa.

Como, então, lidar com esse problema?

Aqui a pesquisa conduzida por Ariely nos oferece insights interessantes, os quais reforçam a necessidade de instituições virtuosas que fomentem as virtudes (o comportamento virtuoso).

Assim, Ariely seguiu com as pesquisas mas fez algumas alterações em sua aplicação. Por exemplo, quando a mesma pesquisa foi aplicada a 500 estudantes da Universidade da Califórnia (UCLA), os pesquisados recebiam, previamente, um formulário em que eles deveriam escrever os 10 mandamentos (aqueles dos quais eles lembravam). Embora nenhum deles tenha lembrado de todos os 10 mandamentos, o fato é que os participantes surpreendentemente não trapacearam no teste.

Segundo Ariely, em sua interpretação, quando os participantes se esforçaram para lembrar dos 10 mandamentos eles trouxeram à tona aquilo que ele chama de “fibra moral” (‘moral fiber’). E é interessante observar que isso independe de qual seja a religião dos participantes, bem como de se eles são ou não religiosos. Afinal, os 10 mandamentos expressam também um código moral, de como seria o modo adequado de nos comportarmos. Assim, a mera lembrança desse código moral auxilia na mitigação da desonestidade. Segundo Ariely, mesmo ateus, quando juram com a mão sobre a Bíblia, evitam mentir.

Portanto, segundo ele, isso não tem relação com céu, inferno, etc, mas com um “lembrete” acerca de nossa fibra moral, acerca de nossa natureza moral. Em suma, precisamos ser continuamente “lembrados” de nossa natureza moral. E aqui as instituições têm, obviamente, um papel fundamental.

Posteriormente Ariely decidiu se afastar desse aspecto religioso e, ao invés de usar a Bíblia, remeteu a um outro “código de honra”. Assim, ao aplicar essa pesquisa no Massachusetts Institute of Technology (MIT), ele propôs que os pesquisados assinassem um termo declarando que estavam de acordo com o “código de honra” da instituição. E, ainda que o MIT sequer tenha um código de honra, os estudantes que realizaram a pesquisa simplesmente não trapacearam.

Posteriormente o experimento foi replicado na universidade de Princeton, a qual, por sua vez, tem um “código de honra”. Não obstante, o que cabe destacar dessas pesquisas é que aqueles que assinaram o “código de honra” não trapacearam. Dentre os que não assinaram, a média de trapaça foi, como no experimento original, a mesma.

A natureza humana é espontaneamente propensa ao vício. A virtude, por seu turno, demanda formação, a qual passa pela existência de diversas instituições: casamento, família, instituições de ensino, órgãos estatais, etc. De acordo com diversos estudos (por exemplo, “Shared Virtue: The Convergence of Valued Human Strengths Across Culture and History”) há, sim, uma natureza humana. E ela vai, aos poucos, “desabrochando”, “florescendo”. Dessa natureza são oriundas as virtudes, as quais promovem nossa plena realização humana.

Em certo sentido, nosso entorno (embora não determine) tem uma influência significativa sobre nosso comportamento. Uma cultura (com suas instituições) viciosa favorece a promoção dos vícios. Uma cultura virtuosa, por outro lado, promove o comportamento virtuoso. Desse modo, precisamos de “lembretes” que despertem nossa “fibra moral”, a qual envolve coragem, força de caráter, determinação, incorruptibilidade, honestidade, disciplina, firmeza nos propósitos, virtude e, claro, resiliência.

Eis a razão de nossos antepassados terem, então, estabelecido instituições. Eles sabiam que instituições pautadas pelas virtudes pavimentavam o caminho para nossa prosperidade e plena realização humana, uma vez que protegiam certos valores fundamentais.

Um exemplo de instituição fundamental é o casamento, o qual envolve, por boas razões, exclusividade (fidelidade) e continuidade (“até que a morte os separe”). Atualmente a instituição casamento passa por um processo de degenerescência, especialmente por conta da falta de comprometimento dos indivíduos, motivada por um egoísmo e um hedonismo exacerbados.

Assim, atualmente não apenas é assegurada (facilitada e, mesmo, estimulada) sua dissolução, mas também se passou a considerar que qualquer agregado constitui um casamento, uma família, como se não soubéssemos que existem arranjos mais eficientes para a prosperidade individual e social.

Isso obviamente enfraqueceu o casamento, a família, etc. E, consequentemente, diversos flagelos advieram, o que tem sido robustamente documentado.

Vou me eximir de abordar esse ponto pois já o fiz aqui:

Mas uma interessante forma de compreendermos a importância de instituições como o casamento, e sobre como elas são determinantes em nosso modo de comportamento (nos orientando a agir virtuosamente), é representada no vídeo que postarei abaixo. Nele há uma frase interessante: “obrigando-se a se comportar como um homem apaixonado, ele uma vez mais se converteu em um homem apaixonado”.

Mas poderíamos acrescentar outras frases, como: “obrigando-se a se comportar como um homem fiel, ele uma vez mais se converteu em um homem fiel”. “Obrigando-se a se comportar como um homem devotado, ele uma vez mais se converteu em um homem devotado”.

“Obrigando-se a se comportar como um homem virtuoso, ele uma vez mais se converteu em um homem virtuoso”.

E assim por diante. Na medida em que temos instituições fundadas em virtudes, quando submetidos a elas nos tornamos, também, indivíduos virtuosos. Portanto, o aviltamento e dissolução de nossas instituições prenuncia o colapso de nossas vidas tanto em âmbito privado quanto na esfera social. Não há como negarmos a relação entre o colapso de nossas instituições e os flagelos sociais que temos enfrentado.

Resgatemos, pois, nossas instituições.

Foto de Carlos Adriano Ferraz

Carlos Adriano Ferraz

Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), com estágio doutoral na State University of New York (SUNY). Foi Professor Visitante na Universidade Harvard (2010). É professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), bem como membro do Docentes pela Liberdade (DPL) nacional e diretor do DPL/RS.

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