“Fé Cristã e Família: dois pilares civilizacionais” (veja o vídeo)

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“Defendo os costumes, o hábito, as instituições comprovadas que funcionam bem. Afirmo que a grande virtude em política é a prudência: o julgamento de qualquer medida pública se dá pelas consequências no longo prazo” (Russell Kirk)

Nas últimas décadas foi consolidada, especialmente no meio acadêmico, a visão de que certos valores e instituições não possuiriam fundamento algum em virtude de terem sido abraçados pela tradição cristã. Trata-se, obviamente, de uma ideia falaciosa. Mas, tal como ocorreu com outros sofismas, tal ideia alcançou grande popularidade. Por essa razão hoje se rejeita não apenas a fé, como se ela fosse mera superstição, mas, mesmo, valores que se consolidaram e nos conduziram à prosperidade civilizacional.

Todavia, cabe notar que, primeiramente, a fé não é mera superstição. Muitos cientistas importantes eram, por exemplo, teístas, deístas, etc. Eles conseguiam conciliar ciência e religião. Aliás, o “milagre” da ciência moderna surgiu apenas na Europa cristã por razões expostas pelo filósofo da ciência Stanley jaki, bem como por Peter Van Inwagen, Alvin Plantinga, et al.

Dessa maneira, os filósofos e cientistas modernos frequentemente mantinham uma postura compatibilista no que concerne à relação entre ciência e fé. Na verdade, muito do avanço da ciência (a chamada “revolução científica”, que começa especialmente no século XVI, tendo Copérnico, cônego da Igreja Católica, e Galileu, assumido católico, como precursores) ocorreu precisamente porque os grandes autores da filosofia da natureza modernos mantiveram ideias oriundas da teologia judaico-cristã (e da metafísica em geral).

Como disse Peter Van Inwagen:

“foi a Europa Cristã que sustentou, promoveu e nutriu a ciência moderna”.

A ciência moderna, tal como os demais pilares da civilização ocidental, é um legado do cristianismo. Cientistas tais quais Copérnico, Galileu, Newton, Robert Boyle, e outros, acreditavam fortemente em Deus e, portanto, em uma ordem na natureza criada por Ele. E isso é uma constatação histórica, a qual revela que a ciência moderna eclodiu a partir de cientistas comprometidos (e em acordo) com a fé em um Deus criador. Essa mesma fé lhes dirigia a uma realidade objetiva (natureza) regrada por leis imutáveis e cognoscíveis.

A ideia mesma de que nos é possível compreender as leis que regem o universo sugere aquilo que ficou conhecido como adequatio intellectus ad rem (“adequação do intelecto à realidade”). Ou, ainda, que nosso intelecto mantém uma espécie de “harmonia” com o universo, de tal forma que esse se torna compreensível para nós. Atualmente muitos autores, por exemplo, no contexto da epistemologia da fé teística, apontam para esse fato. Portanto, simplesmente afirmar que a fé é uma “ilusão”, uma expressão de obscurantismo, é uma afirmação simplória e intelectualmente desonesta. Há razões para crermos (ainda que o crente não o saiba. Mesmo porque isso não é relevante para ele).

E quanto às instituições e valores? Ora, algo similar poderia ser dito sobre essa questão. Consideremos alguns dos pilares da moralidade cristã, a saber, os seguintes mandamentos: “honrar pai e mãe”, “não matar”, “não cometer adultério”, “não roubar”, “não mentir”, “não cobiçar o que não nos pertence”. Seriam eles justificáveis apenas para cristãos?

Creio que não. Afinal de contas, mesmo ateus reconhecem o valor de tais mandamentos. E isso por uma razão bem simples: eles são justificáveis mesmo para aqueles que não creem em Deus. Tais mandamentos sequer foram criados pela Igreja. Eles primeiramente se consolidaram socialmente, uma vez que a sabedoria precede a reflexão. Pensemos naquele que pode ser considerado o mais antigo e importante princípio ético, a “regra de ouro”, também presente na Bíblia: “tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles”.

Ora, diversos estudos na área da antropologia evolutiva, da sociobiologia, etc, têm mostrado que tal princípio, antes de fazer parte do corpus bíblico, já estava evoluindo no convívio entre nossos ancestrais (vejam, por exemplo, “The Origins of Virtue”, do Matt Ridley). Novamente, não é preciso crer em um Deus criador para se considerar que tal princípio é um dos pilares de nosso avanço social/civilizatório.

Assim, algo similar ocorre com algumas instituições, como casamento e família. Tais instituições não foram “inventadas” de forma planificadora. Elas surgiram espontaneamente, de acordo com aquilo que autores liberais como Mises chamavam, recorrendo à tradição, de ‘catalaxia’ (ordem espontânea).

Aliás, tratei de forma mais detalhada esse ponto aqui:

https://dpl.org.br/news/familia-natural/

Nesse sentido, associar a ideia de família “natural” (homem, mulher e filhos oriundos dessa relação) exclusivamente a uma visão religiosa é ou má fé ou simplesmente estultice. A religião não inventou nem o casamento monogâmico entre homem e mulher nem a família natural. Ela (tal como o estado) apenas protegeu aquelas instituições e formas de vida valiosas para nossa plena realização humana. Eis em que reside o conservadorismo da religião, especialmente do cristianismo: ela pretende conservar aqueles valores e instituições que surgiram espontaneamente e foram consagrados pelo uso ao longo do tempo (os quais têm passado, pois, no “teste do tempo”).

Como disse um dos mais importantes filósofos conservadores do século XX, Russell Kirk, o conservador “sabe que a ordem, a justiça e a liberdade são produtos de uma experiência social longa e muitas vezes dolorosa, e que precisam ser protegidas de ataques radicais abstratos. Defendo os costumes, o hábito, as instituições comprovadas que funcionam bem. Afirmo que a grande virtude em política é a prudência: o julgamento de qualquer medida pública se dá pelas consequências no longo prazo”.

Por outro lado, o que pretendem os chamados “progressistas”? Ora, eles pretendem justamente causar o colapso de tudo aquilo que surgiu espontaneamente e pavimentou o caminho de nossa prosperidade. Em seu lugar eles querem colocar valores e instituições centralizadas, ou seja, planejadas desde uma mentalidade centralizadora. Nesse sentido, o progressismo é, em verdade, um “regressismo”, uma vez que pretende perverter e fazer colapsarem nossos pilares civilizacionais, esfrangalhando nosso tecido social moral.

O dito “progressista” parte de ideias abstratas (e, frequentemente, abjetas – talvez fundadas em suas psicopatologias) e as tenta impor à sociedade, causando danos eventualmente irreversíveis. Dissolução da família tradicional, ideologia de gênero, por exemplo, são abstrações que deliberadamente ignoram a realidade. Fazem, em verdade, parte de experimentos contra a realidade e, por fim, contra a humanidade.

Uma das causas para tal dissolução está na ideologia socialista. Uma autora que representa claramente esse projeto de dissolução no âmbito não apenas econômico (mediante a economia planificada), mas também moral, é a líder revolucionária russa e teórica do marxismo, Alexandra Kollontai (1872-1952). Tendo em mente sua visão coletivista, ela insistia que as famílias deveriam ser dissolvidas para que o “coletivo” passasse a cuidar de seus membros. Desse modo, ao se referir às mulheres, ela insistia que não caberia ao homem (cônjuge) cuidar delas e protege-las, mas ao “coletivo”. Nesse sentido, Kollontai foi uma das precursoras do fim da fidelidade conjugal, das obrigações em relação aos filhos, etc.

Mas vejam: essa se tornou uma visão dominante hoje. Ela pretende fazer colapsar aquilo que surgiu espontaneamente. Como eu mencionei acima, a família é anterior ao estado (e, mesmo, à igreja). Isso porque a vida social não surgiu com o estado. Havia sociabilidade (e uniões familiares) naquilo que se costuma chamar, em jusnaturalismo, de ‘estado de natureza’ (pré-estatal, mas não pré-social). Nesse ‘estado de natureza’, como nos revelam os achados da antropologia evolutiva, já havia também propriedade privada, livre troca, etc.

Não obstante, o ponto é que o estado não é capaz (nem é sua atribuição) de oferecer aqueles bens que apenas a família pode oferecer. Ele não surgiu para substituir a família, mas para proteger a ela e a outras instituições e valores. Sabemos que há diferenças fundamentais entre homens e mulheres, bem como que cada um leva, para dentro da família, seus “dons” em particular.

E o vínculo biológico entre pais e filhos fortalece essa proteção dos filhos. Isso é biologia (evolutiva) e ocorre natural e espontaneamente. A visão planificadora, artificial, jamais conseguirá substituir esse modelo (“natural”) de família. Por certo existem famílias disfuncionais. Mas mesmo esse tipo de família reforça o evidente: a importância de famílias funcionais.

A ideia central de Kollontai e dos atuais “progressistas” é que alguns ungidos seriam capazes de criar um modelo de família a partir de suas abstrações mentais. Ignoram que a família serve ao bem das crianças e dos pais, promovendo seu pleno florescimento humano. Diversos estudos corroboram esse fato, como alguns que menciono no texto cujo link foi postado acima.

Mas há outros, como, por exemplo, aquele intitulado “The New Progressive Argument: For Kids, Marriage Per Se Doesn’t Matter”, coordenado por Bradford Wilcox e publicado pelo ‘Institute for Family Studies (IFS). Esse estudo apenas revela o que muitos outros estudos já mostraram: crianças criadas em uma família funcional (de pouco conflito), segura e “natural” (com seus pais biológicos) se saem melhor em diversos indicadores, superando aquelas crianças criadas em modelos “alternativos”. E não se trata de apenas as crianças se beneficiarem. Uma vez que elas são nossos recursos humanos para o futuro, a sociedade toda usufrui das benesses mensuradas por esses diversos indicadores.

Abundantes estatísticas revelam essa realidade (conhecida mesmo pelo senso comum), como as apresentadas por Don Browning em “World Family Trends”. O desenvolvimento cognitivo, moral e emocional das crianças está fortemente ligado à sua criação em um ambiente familiar funcional com seus pais biológicos.

Desse modo, não é preciso ser religioso para reconhecer esse fato. Basta ser cognitivamente funcional e honesto intelectualmente.

Abordo aspectos desse tema, por exemplo, nessa live organizada pelo ‘Docentes pela Liberdade’ (DPL):

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Foto de Carlos Adriano Ferraz

Carlos Adriano Ferraz

Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), com estágio doutoral na State University of New York (SUNY). Foi Professor Visitante na Universidade Harvard (2010). É professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), bem como membro do Docentes pela Liberdade (DPL) nacional e diretor do DPL/RS.

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