A banalização do crime

A estratégia de minimização da responsabilidade

Passa despercebido das massas, mas a banalização do crime é uma estratégia muito bem-sucedida quando há necessidade de conviver com referências ao mau feito.


Antes de meter a unha na ferida, farei uma analogia introdutória que não vai doer quase nada.

Todos nós trazemos, em maior ou menor intensidade, virtudes e falhas de caráter. Essas características essenciais se manifestam no comportamento, resoluções e na direção que um sujeito dá à sua vida, à condução de suas atividades e à relação com a sociedade.

Observem o exemplo de um incidente no trânsito com danos materiais de pequena monta e nenhum ferido: a tendência de quem causou o dano é classificar o ocorrido como “uma batidinha”, “um arranhão” e até sugerir que “uma boa massa tira isso aí”. Já aquele que foi prejudicado e teve seu bem avariado considera que “acabou com o paralama”, “o carro nunca mais será o mesmo! ”.

Percebem que ambos exageram?

Não que seja assim para todo mundo, mais são condutas comuns. O prejudicado provavelmente chegará em casa dizendo que “Um idiota acabou com meu carro!”, ou outro provavelmente dirá pra mulher (se disser) que “Putz, distraí e dei uma encostadinha no trânsito, dá nada não...”.

Tudo isso está relacionado ao caráter das pessoas. Sem exceção, quando se trata da conduta e relações humanas, tudo está embasado no caráter, e este bebe dos valores e princípios morais ali dispostos.

Já estamos habituados a ouvir nos noticiários referência à uma gigantesca fraude fiscal, de proporções “nunca antes vista neste país”, que foi apelidada estrategicamente de “Pedaladas Fiscais”.

É um apelido estratégico e cuidadosamente bolado. Coisa de profissional.

Quem conhece um pouco de ferramentas como a semiótica, a aplicação da Gestalt, marketing e publicidade, sabe que o mero conhecimento superficial dessas matérias pode fazer um estrago em mãos desprovidas de escrúpulos, para ser...  gentil.

A fraude fiscal é um crime grave, quando praticado por gestores públicos, na prática, é a esculhambação total. É a conversão da coisa pública em “Casa da Mãe Joana”.

Um país em que o dirigente maior pratica, defende e acredita poder justificar um saque aos recursos públicos, não tenha dúvida, pode ser comparado a uma grande orgia em que uma minoria se farta no sacrifício e no sofrimento de milhões de incautos. Nessa “orgia” somos literalmente arrombados, e quem nos arromba chama isso de “afago”, de “cuidado”, “zelo” e até de “chamego”. Não é bonitinho? Own!

“Pedalada Fiscal” é o cazzo, meu!

Crime, é crime!

Fraude, é fraude!

Pedalar e fazer da bicicleta seu veículo, é um gesto de nobreza, de generosidade, de construção de um mundo sustentável e limpo. Quem pedala contribui para um planeta melhor.

Entendeu o porquê da escolha do “apelido” que deram à fraude?

Convido a todos, ao empenho, ao esforço de tratar crime como crime, fraude fiscal como fraude fiscal, e releguemos à bicicleta e às verdadeiras pedaladas o lugar nobre que elas merecem.

Pobre da bicicleta.

Pobre da pedalada...

Pobre povo brasileiro.

João Henrique de Miranda Sá é escritor e redator autônomo

jhmirandasa1931@outlook.com

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João Henrique de Miranda Sá

Jornalista independente em Campo Grande - MS.

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