Socorro!!! A cadeia produtiva do crime

Ninguém espera sofrer uma violência, mas um dia ela bate à sua porta e você passa a fazer parte da triste estatística dos prejudicados e traumatizados numa sociedade que não lhe dá a mínima segurança. Você, como muitos, percebe que a sua família está sujeita a todo tipo violência e chega à conclusão que não tem por onde correr. Hoje as pessoas vivem acuadas e prisioneiras em suas próprias casas. O que fazer? Algumas se preparam construindo verdadeiras fortalezas, com cães ferozes, alarmes, cercas elétricas, vigilantes, câmaras de segurança e outras parafernálias.

Entretanto, isso não impede que os assaltantes sejam cada vez mais ousados. Basta acompanhar os noticiários da imprensa, onde o perigo espreita a entrada das residências. A bandidagem fica de tocaia próxima das garagens. E aí todos sabem as consequências. No meu caso, eles entraram pelo portão de serviço, num vacilo que demonstrou uma fraqueza da minha “fortaleza”. Pois bem, também engrosso a extensa lista dos roubados num país onde impera a impunidade, com uma legislação branda para os bandidos e rigorosa para as pessoas de bem. Já faz alguns anos, mas continuo traumatizado. Sempre pensei que minha casa fosse uma fortaleza e nunca me preocupei em fazer cópias dos meus arquivos no notebook. Nele continha vários anos de pesquisas, dois livros em andamento, coleções de documentos e fotos antigas. Perdi tudo, mas aprendi a lição.

Temos atrás, nossos legisladores federais aprovaram uma lei caolha, devidamente sancionada pela presidente, que vai permitiu a liberação de condenados pela justiça que, com certeza, ampliou a margem de atuação das quadrilhas de criminosos. É o caso de se indagar: por que aumentaram os roubos e furtos em residências, muitos em plena luz do dia? O que vem primeiro à minha mente é o fato de que os bandidos sabem que as famílias hoje estão desarmadas. É a consequência da hipócrita lei do desarmamento que levou as pessoas de bem a devolver as suas armas. Pergunto:  os bandidos devolveram as suas armas? É claro que não.

Quando me refiro aos bandidos, não enquadro apenas a vanguarda da criminalidade, ou seja, os “pés de chinelos” que, com extrema violência invadem, estupram, torturam e matam pessoas indefesas. Refiro-me também aos “empresários do crime” que sustentam e alimentam um grande ramo da criminalidade, que são os donos das chamadas “bocas de fumo” e os receptadores de produtos roubados. São essas bocas que estimulam os pequenos furtos para a troca de diversas drogas, abertamente expostas à sociedade. Já os receptadores são, a meu ver, piores, pois em sua ganância de obter bens a preços aviltados e conseguir altos lucros estimulam a maioria das ações que violentam a nossa sociedade. Porém, esta “cadeia produtiva” do crime não para por aí.

Pois bem. Ilude-se também aquele que acha que ainda existe o “ladrão de galinha”. A bandidagem profissionalizou-se e atua em rede, bem organizada e extensa, diga-se de passagem. E, por trás de todo esse esquema estão muito bem situados os grandes financiadores do tráfico de drogas e os milhões de usuários de todas as camadas da sociedade, do menino de rua ao jovem descolado e “mauricinho”  das altas rodas e baladas.

Enfim, o mundo do narcotráfico que compreende produção e distribuição em grande escala tem uma de suas pontas na boca de fumo, no assaltante de automóveis, nos sequestradores (o conhecido “sequestro relâmpago”) e nos assaltantes de residências ou estabelecimentos comerciais com graus diferentes de violência, sempre muito traumática. Desconfia-se que a outra ponta desse imenso negócio está mais acima, no topo da sociedade, em altos escalões e só sabe Deus aonde mais...

Os altos índices desses delitos, assaltos e roubos cada vez mais frequentes com violência e até com morte, mostram uma sociedade doente com um câncer em fase de metástase. E para agravar esse quadro da saúde social brasileira existe a praga da impunidade. Está claro que é uma questão estrutural da sociedade desigual e injusta que se construiu historicamente no Brasil, mas agora no ponto em que chegou só nos resta apoiar medidas emergenciais, como clamar por uma dura repressão ao crime para, ao menos, diminuir a ação desses ramos menores da bandidagem. Trata-se de medida paliativa, apenas, pois essa epidemia de violência é difícil de ser debelada.

Será que viveremos muito tempo ainda nesse estado de barbárie com um cotidiano não diferente do clima de guerra civil, tal como vivem os haitianos, os afegãos, os iraquianos e outros povos infelizes da face desta terra? Confesso que estou traumatizado e ando um pouco desiludido...

Valmir Batista Corrêa

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Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

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