Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

Civilização ou barbárie?

Algumas décadas atrás, um filme de extrema violência fez um tremendo sucesso de bilheteria e motivou a produção de uma sequência de filmes sobre o mesmo tema. O filme chamava “Desejo de Matar”, estrelado por um ator feio e mau encarado chamado Charles Bronson. A história resumia-se na vida de uma cidade dominada por gangues de jovens que praticavam uma violência sem precedentes, gratuita e seguida de roubos, mortes, estupros, entre outros. Era uma sociedade acuada, indefesa e com uma polícia impotente para coibir esta extrema selvageria.


Sempre entendi ser esse filme de pura ficção e que jamais alguém poderia conviver num mundo com um cotidiano de tanta violência, como era ali retratado. Enfim, era um filme que apresentava uma cidade inteira dominada por um grupo fascista, violento e politicamente incorreto.

A situação começou a reverter-se quando apareceu na fita um “mocinho” tão violento quanto os próprios bandidos, passando a eliminá-los um a um. O público que assistia enojado o filme e sentindo-se também agredido por aquela violência gratuita aplaudia e vibrava quando Bronson atingia cada um dos bandidos. O enredo mostrava como a vítima principal do filme tomava em suas mãos o poder de fazer a própria justiça. Diga-se de passagem, que muitos outros filmes de ação norte-americanos mostram essa mesma temática da lei do “olho por olho” e, no final, o mocinho de vítima passa a herói e a plateia vibra.

Mas saindo da ficção para a realidade, pode-se dizer que existe hoje o risco de o cidadão ter o desejo de sair por aí atirando e matando seus infratores, por sentir-se desamparado e descrente da eficiência e da integridade dos órgãos de segurança do estado.  Caso isso aconteça, viveremos então o caos e a barbárie em sociedade.

No entanto, basta ver o programa policial na TV do apresentador Datena e outros do mesmo gênero, para sentir com um frio na barriga que já estamos em plena barbárie. As mesmas cenas do filme americano são repetidas nesses programas em tempo real, reafirmando o descrédito na segurança pública. É o fio da navalha por onde caminha a democracia e a sociedade brasileiras: essa violência sem conotação política poderá muito em breve gerar uma explosão social de maiores proporções e de caráter político. Creio que estamos a um passo disso.

A sociedade está no limite da desesperança e os nossos legisladores serão os maiores responsáveis pelo que vai acontecer no porvir. Tempos atrás um trágico caso ocorreu em nossa capital que até hoje serve de alerta e demonstrou uma sociedade desnuda, em que uma quadrilha de jovens, meninos e meninas entre 14 e 17 anos, mataram com requintes de crueldade um outro jovem para roubar apenas 30 reais. Até hoje os seus familiares estão traumatizados com tanta violência. No caso, uma repórter indagou a um juiz da infância e da adolescência como explicar aquele horroroso acontecimento? Ele respondeu simplesmente que se tratava de uma distorção dos direitos humanos, situação onde a legislação não protege o cidadão de bem e acaba privilegiando os bandidos. Disse que, pela lei vigente, esses assassinos adolescentes em pouco tempo estariam novamente na rua para cometer novos crimes.

Não sei o que aconteceu depois disso com esses bandidos. E o número de crianças e adolescentes infratores cresce assustadoramente neste nosso país, sem perspectivas de recuperação e incentivados pelas facilidades e pelo poder do mundo do crime.

Convenhamos, é uma barbaridade ouvir isso de uma autoridade deste nível, bem como é o fim do mundo presenciar atitudes absurdas e comuns da população que expressa medo, intolerância e desejo de que haja pena de morte para os bandidos e de que apareça um justiceiro armado até os dentes para coibir a bandidagem.    

Volto, pois, ao velho filme de Bronson e fico a meditar sobre a nossa sociedade dita organizada, em que a vida humana não vale sequer um centavo. Diante do abrandamento da lei e da incapacidade das polícias constituídas regularmente em resolverem o problema e garantirem a segurança dos cidadãos honestos, pacíficos e trabalhadores, receio que o clima de barbárie acabe por produzir, como já aconteceu em vários momentos da história brasileira, esquadrões de bandidos travestidos de seguranças, cujas arbitrariedades e crimes passaram a ser aplaudidos pelo incauto cidadão comum. Na época da ditadura militar, nos anos setenta, apareceram como defensores da sociedade os tristes e célebres esquadrões da morte praticando arbitrariedades, violências e mortes. Eram bandidos que usavam distintivos policiais para violentar e achacar a sociedade brasileira, com a desculpa de reprimir a subversão e a corrupção. Mais recentemente, apareceram as chamadas milícias constituídas por policiais, ou ex-policiais, que desonraram suas corporações e atuaram em ilícitos nas favelas do Rio de Janeiro, com se fossem os defensores da comunidade.

E agora, como ficamos? Qual o caminho a tomar quando a sociedade sente medo e fica acuada?  Vamos escalar o Charles Bronson?

Valmir Batista Corrêa

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