Quando a Ciência é obliterada pela “siensçia”

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Não fiquei surpreso ao saber que meu estado natal, o Rio Grande do Sul (RS), adotará, das 22:00 horas deste sábado (20/02) até as 05:00 do dia 1º de março, um severo toque de recolher.

Embora o governador se refira a uma “restrição das atividades”, o que ocorrerá, na prática, independentemente de qualquer eufemismo que ele venha a usar, será um “toque de recolher”, similar àqueles que costumávamos assistir tão somente em filmes que descreviam sociedades totalitárias e violadoras dos direitos fundamentais.

Ao fim do filme nos sentíamos agradecidos por vivermos em uma sociedade que prezava os direitos fundamentais, como vida, liberdade, propriedade privada, etc.

Como poderíamos imaginar que acordaríamos, em março/2020, em tal estado despótico e hostil aos direitos fundamentais? Como foi possível que tenhamos cedido nossos direitos fundamentais e abandonado o bom senso de forma tão abrupta? Como nos tornamos tão apáticos moralmente e tão desprezíveis intelectualmente?

Mas voltando à questão do toque de recolher, no caso do governo do RS (e de inúmeros outros que estão adotando medidas como essa) a justificativa alegada é uma suposta preocupação com o colapso do sistema de saúde. Segundo os profetas do apocalipse pandêmico, o que importa é “salvar vidas”.

Essa tem sido, aliás, a retórica escutada ad nauseam desde que a pandemia do coronavírus foi declarada pela ‘Organização Mundial da Saúde (em Março/2020). E a questão é exatamente essa: tal manifestação se reduz apenas a uma estratégia retórica. A ideia é tão somente nos convencer de que necessitamos de medidas que nos tolham a liberdade, em todas as suas expressões, e, eventualmente, a nossa vida, independentemente da verdade por detrás do que se está afirmando.

Aliás, vivemos no auge do pós-modernismo, da pós-verdade, do pós-humanismo, etc. Por essa razão já não importa, no âmbito científico, a verdade, mas apenas as narrativas (as quais são relativas, instáveis). Isso já era algo comum nas ditas “Humanidades”, mas recentemente esse relativismo, imerso em uma ideologia abjeta, chegou mesmo em áreas antes intocadas pela estupidez, como a matemática.

Enquanto escrevia esse texto recebi, por exemplo, uma notícia esclarecendo que o cerco está se fechando mesmo na matemática. Atualmente entrou na matemática a ideia de que “a supremacia branca se manifesta na ênfase em buscar pela resposta certa”.

Ou seja, tal como em “1984”, de George Orwell, diante dessa nova abordagem talvez “2+2=5” seja uma equação correta. Afinal, a verdade já não importa para o mundo pós-moderno e pós-humano. Mesmo buscar pela resposta correta está se tornando uma espécie de preconceito. Ou seja: trata-se de negar a ciência na medida em que se está negando a verdade.

E isso ocorre hoje, inclusive, quanto à questão da pandemia. Mas também ocorre nas discussões políticas, judiciais, etc.

Hoje vige a retórica em seu uso espúrio: instituições falam em democracia, mas agem ditatorialmente; políticos falam em honestidade, mas se corrompem; membros do judiciário defendem a separação dos poderes como um pilar da democracia, mas usurpam os demais poderes; indivíduos são condenados por usarem sua liberdade de expressão, pois incorreram em uma espécie de “crime de opinião” (ou, “crime de pensamento”); membros do judiciário ignoram deliberadamente o império da lei para atingirem propósitos nada justificáveis ou, mesmo, republicanos; gestores públicos falam em “salvar vidas”, mas impedem que as pessoas tenham acesso a tratamentos que poderiam salvar efetivamente suas vidas, e assim por diante.

Esses são apenas alguns exemplos de como hoje o discurso não precisa coincidir com a ação, tampouco com a intenção. Verdade seja dita, atualmente a narrativa sequer precisa coincidir com a realidade.

Com efeito, uma das mais desprezíveis manifestações desse uso sórdido da retórica nós o identificamos na evocação do mantra “ciência”. Na verdade, sob a suposta evocação da “ciência” o que encontramos é “siensçia”. Afinal, o que se está continuamente conjurando não é a Ciência. Primeiramente, Ciência envolve falseabilidade, e por isso ela difere do dogma. Portanto, de largada o que os ungidos evocam desde março de 2020 não é Ciência.

A censura a todo aquele que propõe o debate, o sopesamento de dados e pesquisas, etc, é uma evidência de que não estamos no âmbito da Ciência, mas do obscurantismo. Mesmo artigos científicos, publicados em importantes periódicos, são denunciados e retirados das plataformas sociais da internet, ainda que publicados em perfis de pesquisadores destacados em suas áreas. Apesar das eminentes credenciais teóricas de seus autores, suas pesquisas são consideradas “fake News”. E isso é feito sem qualquer argumentação.

Vide o que que escrevi no texto cujo link está logo abaixo, em que abordo especialmente o problema do negacionismo do tratamento precoce, o que tem causado um crime de lesa humanidade, especialmente ao impedir o acesso de inúmeras pessoas, sobretudo daquelas em situação de vulnerabilidade social, a um tratamento com imenso potencial de eficiência, algo evidenciado por diversas pesquisas e pesquisadores.

De qualquer forma, para os ungidos o que importa é a narrativa. Não importam vidas, tampouco a liberdade e a prosperidade.

E é nesse contexto que a narrativa propalada pelo governo do RS é apenas retórica em seu sentido mais torpe.

Primeiramente, não há preocupação efetiva com a saúde. Se houvesse, o governador estaria melhor assessorado e saberia que há diversos estudos corroborando o uso do tratamento precoce no combate à Covid-19. Nesse momento, por exemplo, cresce o número de países cedendo diante da eficiência de medicações como ivermectina e hidroxiclorouina, algo revelado por diversas pesquisas. Isso torna evidente que tais países estão verdadeiramente preocupados em salvar vidas. Não se trata de mera retórica.

Recentemente voltei a bordar esse tema aqui:

https://www.jornaldacidadeonline.com.br/noticias/27063/urge-julgarmos-e-condenarmos-os-criminosos-da-guerra-contra-a-covid-19

Desse modo, o tratamento precoce seria uma maneira eficiente de realmente salvar vidas. Se a preocupação, claro, fosse essa. A meu ver, não é. Desde o início, a maioria de nossos prefeitos e governadores, bem como políticos, artistas, acadêmicos, etc, estão mais em acordo com suas idiossincrasias, interesses mesquinhos, do que com a ideia de “salvar vidas”.

Sobre o lockdown, desde o ano passado, e isso já no início da pandemia, tem surgido pesquisadores de altíssima relevância mundial na área da saúde, dentre os quais há até um laureado com prêmio Nobel, insistindo que o lockdown não apenas é inútil: ele é danoso, prejudicial a alguns direitos fundamentais, como vida e liberdade.

E os estudos fundamentando tal fato apenas avançam, em uma espécie de cruzada contra a estupidez. Por exemplo, no dia 05 de janeiro/2021 foi publicado um estudo de pesquisadores da Stanford University, intitulado “Assessing mandatory stay‐at‐home and business closure effects on the spread of COVID‐19”, o qual subsidia o que pesquisadores têm dito ad nauseam, a saber: o lockdown (a tal “restrição de atividades”) não é eficiente.

Não obstante, tal como ocorre com o uso do tratamento precoce, cuja altíssima probabilidade de eficiência tem sido crescentemente comprovada pela Ciência, tal estudo é simplesmente ignorado pelos nossos gestores, que optam por levar em consideração youtubers, sujeitos desqualificados que não são da área médica e outros indivíduos motivados por suas idiossincrasias políticas.

E, claro, levam também em consideração sujeitos que são “apenas” estúpidos, intelectualmente incompetentes sob quaisquer critérios. E, com isso, seguem a “siensçia”, tal como parece ser o caso do RS, no qual temos lockdowns e suas colateralidades: crise econômica, desemprego, miséria, sofrimento, danos à saúde (mental e física) ....

Mas, cabe notar que essa crise é seletiva: estados, municípios e seus servidores passarão ilesos pela crise. Por que? Ora, como foi noticiado recentemente, “o governo federal transferiu recursos para cobrir a estimativa de frustração de receitas, na crise da pandemia, e suspendeu a cobrança de dívidas”. Sim, os mesmos prefeitos e governadores que criticam o presidente Bolsonaro, e mantêm suas cidades e estados estagnados e fechados, estão com os cofres generosamente abastecidos com dinheiro da união.

Portanto, pouco importa para eles a crise em curso e a tragédia humanitária em que eles estão jogando sua população. Importa menos ainda a Ciência. Isso porque a Ciência contraria seus planos e ações. Eles optam, então, pela “siensçia” e seus sectários, motivados ou por idiossincrasias e interesses torpes ou por mera estupidez.

A queda vertiginosa da movimentação financeira não os vai atingir. Eles estão com os cofres cheios e os servidores estão com seus proventos sendo pagos em dia. Na verdade, estados e municípios nunca estiveram tão bem financeiramente.

Portanto, a Ciência foi abandonada, vilipendiada. Em seu lugar hoje vige a “siensçia”, a qual se impôs dogmaticamente em detrimento da verdade. O que está ocorrendo agora, no RS, assim como em diversos outros lugares, é a imersão na barbárie moral e intelectual.

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Foto de Carlos Adriano Ferraz

Carlos Adriano Ferraz

Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), com estágio doutoral na State University of New York (SUNY). Foi Professor Visitante na Universidade Harvard (2010). É professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL).

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