A propaganda é a alma do engodo

A cada ano o mundo inteiro comemora, não sei se com repercussão desejável, “um dia sem tabaco”. Eu fui fumante e usei um charmoso cachimbo. Isso me fez lembrar que a propaganda é a alma do negócio e, com certeza, um instrumento de venda e de divulgação de todo tipo de produto. Por mais que pareça uma bobagem, uma propaganda eficiente sempre convence alguém da utilidade e do valor (mesmo simbólico) de qualquer coisa. Como se dizia no passado, na época em que se amarrava cachorro com linguiça, para justificar a enganação a propaganda vendia gato por lebre. 


Além disso, a história da humanidade está aí para confirmar que se existe um vigarista é porque existem muitos otários. Tempos atrás apareceu uma propaganda nas ruas da capital, em enormes outdoors, de um tal Banco Clássico prometendo emprestar vultuosas quantias, de 5 mil a 5 milhões, mesmo para o indivíduo que tinha ficha suja na praça, com a exigência de um pequeno depósito para as despesas iniciais. Não deu outra. Muitos confiaram nessa conversa fiada. Esses ingênuos, metidos a espertalhões, logo perceberam a tunga e apelaram à polícia, porém tarde demais.

Existe outro tipo de propaganda que tem um forte componente ideológico de dominação política ou mesmo comercial. O cinema foi muito utilizado nesse sentido pelos norte-americanos e hoje é despudoradamente usada pela televisão com o charmoso nome de merchandising.

Na época da guerra fria e da política externa paranoica norte-americana, era comum ver filmes seriados, em matinês, que retratavam de forma demoníaca povos contrários à sua dominação, como os árabes, por exemplo. É importante lembrar que o cinema surgiu há pouco mais de 100 anos e no começo era mudo e em branco e preto. Logo, porém, os produtores e políticos dos EUA perceberam a poderosa arma que representava o cinema. Os nazistas já o utilizaram eficientemente para seduzir as massas e ascender ao poder na Alemanha, nos anos 30. Geralmente os seriados americanos de aventuras retratavam os árabes como homens malvados e feios, com olheiras escuras e feições assustadoras que sempre tentavam pegar o mocinho pelas costas, à traição. Era uma forma de formatar ideologicamente um mundo dividido entre mocinhos e bandidos, fazendo a cabeça de crianças e jovens. E claro, os mocinhos eram sempre os norte-americanos, brancos, olhos azuis, altos e lindos.

Outro exemplo, já na ocasião da Segunda Guerra Mundial, os filmes americanos ridicularizaram os japoneses, os italianos e os alemães com papéis violentos frente ao seu mocinho. Neste bojo, mesmo na lógica da propaganda, duas obras primas cinematográficas sobressaíram-se no período: “O Grande Ditador” de Charles Chaplin e “Casablanca”, este estrelado por Humphrey Bogart e pela belíssima Ingrid Bergman. São filmes maravilhosos que marcaram a história cinematográfica, sobretudo pela visão crítica da política internacional e da guerra (crítica sutil, é claro), sobressaindo-se dentre os filmes medíocres e descaradamente manipuladores.

Do lado do expansionismo do mercado americanos no âmbito mundial, impressionou-me, quando era jovem, um filme em que o personagem principal, um cantor de baladas americanas chamado Pat Boone, fez muito sucesso na época. Vale lembrar que em cidades interioranas de certo porte, distantes dos grandes centros como Rio e São Paulo, havia um cinema e esses filmes americanos chegavam, mesmo que tardiamente.

A todo momento, o mocinho sedutor abria uma geladeira e tirava uma garrafa de coca-cola, um refrigerante que nos anos 50 do século passado grande parte da juventude brasileira desconhecia. Eu ficava imaginando que gosto teria e que delícia seria aquela. Era a entrada mundial do refrigerante no mercado, que objetivava influenciar um público potencialmente consumidor. Soube mais tarde que o fabricante financiou o filme.

Com certeza, do ponto de vista do marketing, o filme foi uma obra prima e um dos pioneiros em propaganda subliminar de massas. Sabe-se hoje, também, que a maioria dos filmes americanos foi financiada pela poderosa indústria de cigarros. Foram eles que venderam a imagem charmosa e “classuda” de fumar em público, incluindo as mulheres. Nesses filmes os mocinhos e as mocinhas apareciam fumando em suas principais cenas. É clássica, a imagem de Bogart com um cigarro aceso displicentemente no canto da boca.

Todo cuidado é pouco, pois o merchandising tem sido amplamente utilizado na política, a ponto de maquiar completamente candidatos e suas propostas de governo. Os exemplos nefastos estão aí, expostos e causando grandes estragos no País.

Em política a propaganda também é a alma do negócio. Entretanto, ao nos deixar levar pelo canto das sereias, entregamos nossa alma e a chave dos nossos cofres aos larápios.

Valmir Batista Corrêa

Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

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