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Corrupção: a mãe de todos os males

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Estamos vivendo uma sociedade chafurdada num mar de lama, desde os mais altos escalões da República até os mais distantes grotões do país. A palavra corrupção, curiosamente, pode ter vários significados como decomposição, putrefação, devassidão, depravação, perversão, suborno, entre outros. Apesar do seu significado amplo e que atinge todos os segmentos da sociedade, ela é mais lembrada como o mal uso do dinheiro público. Parece que esta vertente da roubalheira é a que mais atinge e incomoda a todos.

A corrupção é uma perversa mãe que acompanha a humanidade por todos os tempos, tendo, portanto, início, meio, mas não fim. Basta ver um livro de história e viajar no tempo para encontrar sociedades, impérios, governos que se afundaram num mar de desmandos e corrupção. 

No Brasil colonial, na capitania de Mato Grosso, quando a sua sede foi instalada às margens do rio Guaporé, houve um tipo de doença que doía e incomodava muito, denominada “corrupção”. O mal provocava febres e uma infecção no ânus, atingindo pobres ou ricos, indistintamente. Quem quiser saber mais pode consultar os primeiros documentos sobre a história de Vila Bela, primeira capital de Mato Grosso no século XVIII. O procedimento de cura era mais tenebroso que a própria doença. De forma primitiva, era introduzido, naquele lugar desagradável onde o foco infeccioso se instalava, um chumaço de algodão molhado em óleo e pólvora, sendo este um tratamento descrito e aplicado em um certo capitão-general (governador na época). Consta que ele foi curado, a despeito da humilhação e da duvidosa eficiência da profilaxia adotada na época.

Agora, com a velocidade dos meios de comunicação e a globalização das informações parece que a corrupção está cada vez mais próxima de nós. Não é mais a doença colonial, mas é uma gravíssima contaminação, uma chaga social sem cura. Assim, sabe-se que em todas as partes do mundo pipocam atos de corrupção que indignam e provocam manifestações de repúdio. Do outro lado do mundo, por exemplo, um líder popular indiano fez uma campanha de moralização e combate à corrupção, exigindo uma legislação mais rigorosa, com a única arma de que dispunha – a greve de fome.

No Brasil, a coisa não é diferente e a corrupção está disseminada em todos os setores e categorias sociais. É claro que não é algo novo e é recorrente desde remotas eras. No entanto, nos tempos atuais, a corrupção é prática descarada e demonstra que a sociedade brasileira está gravemente doente e sem uma profilaxia a curto prazo. Falta legislação moderna, atualizada e mais rigorosa que proteja a gente de bem que, sem dúvida, é a maioria da população. Mas a podridão é o que se sobressai. Apesar disso, creio que a atuação da imprensa ameniza um pouco esses lamentáveis episódios, denunciando-os e, às vezes, obrigando o governo a tomar algumas providências.

Os campo-grandenses ficaram assustados certa feita com a divulgação de um “clube da bulinagem”, onde crianças a partir de 10 anos fugiam da escola e frequentavam festinhas comandadas por um jovem de 16 anos (já um cafajeste), faziam sexo e consumiam drogas. É mais um caso horroroso de corrupção de menores. E o que fazer diante desse descalabro? A legislação não permite uma ação mais efetiva em se tratando de menores e não há como coibir a desagregação familiar.

O mesmo aconteceu em São Paulo, onde um grupo de crianças na mesma faixa etária, movido pelo cheiro de solvente (cola de sapateiro), depredou uma sala do Conselho Tutelar e duas delegacias. E qual a solução? Nenhuma, por enquanto, a não ser chamar as mães responsáveis e aplicar uma punição inócua e temporária. Até o comerciante desonesto (um traficante, na verdade) que vendeu o solvente às crianças vai se beneficiar com a impunidade.

Nestes dias ocorreu um trágico episódio de duas crianças que assaltaram um condomínio e fugiram dirigindo um carro de luxo. Ao serem perseguidos pela polícia, um dos meninos de 10 anos foi morto a tiros. E uma polêmica já está estabelecida na imprensa sobre o caso: o menino estaria armado e teria atirado nos policiais? O que é correto num caso como este?

Um amigo, policial, confidenciou-me que está impossível combater a bandidagem de menores ou de adultos, não por medo ou desrespeito à sua corporação, mas por receio de ser punido pela atual legislação. Num combate com infratores, se um destes sair ferido, é o policial quem fica desprotegido. Se usar arma de fogo, o policial corre o risco de ser punido, preso, perde o seu salário, a aposentadoria e deixa a sua família desamparada. Será que não é hora de repensar tudo isso?

Sei que muita gente não gosta de ouvir umas verdades, mas a omissão à corrupção em todos os seus níveis acelerou-se muito nos últimos anos e nos últimos governos. Refiro-me aos políticos, legisladores, magistrados e também a sociedade que fecha os olhos para o mal e só grita quando é diretamente atingida pelo prejuízo. Há, entretanto, a honrosa exceção da operação Lava Jato.

A corrupção é doença que afeta tudo, é altamente contagiosa e também enfraquece o poder da maioria na democracia, levando o cidadão à desesperança ou a aceitar e agir como os corruptos, quando há oportunidade.

Se isso não acabar, onde é que vamos viver?

Valmir Batista Corrêa

Foto de Valmir Batista Corrêa

Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

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