Rio 2016: uma aventura no mundo da lua

Há quarenta e sete anos atrás ocorreu um fato histórico que impactou o mundo. Concretizando um sonho (teoricamente) da humanidade, o homem pisou pela primeira vez na Lua, ou melhor, os norte-americanos. Foi a época da “guerra fria”, quando os maiorais eram os EUA e a URSS que haviam dividido o mundo em duas áreas de interesse e de predomínio internacional. Essa disputa acirrada entre “democracia versus comunismo” na verdade dissimulou a política imperialista de ambos os lados e justificou a corrida armamentista, golpes de estado, ditaduras sanguinolentas e finalmente, a busca do controle do espaço cósmico.

Vale lembrar que na Idade Média os reinos mais importantes da Europa corriam atrás das relíquias da cristandade e da Terra Santa, combatendo os infiéis. No século XX, as potencias buscaram outros símbolos de poder.

Este avanço criou a necessidade de novas tecnologias para sobrevivência dos astronautas que foram muito bem aproveitadas no cotidiano do homem comum. Foram alimentos e computadores, entre outros. Bilhões de dólares foram gastos, mas reconheçamos, a humanidade no seu conjunto foi indiretamente beneficiada.

O evento, passado como espetáculo extraordinário quando o homem deixou as suas pegadas na superfície da Lua, foi visto em todas as partes do planeta, pois a televisão já estava globalizando o nosso mundo. Aqui, na nossa vereda tropical, a Rede Globo colocou a sua marca na Lua, com uma audiência nunca vista até então, transmitida pelo jornalista Hilton Gomes. Emocionado com o fato, o jornalista gritou: “Chegamos à Lua”!

Nós quem, cara-pálida? O modo subserviente de encarar o feito dos americanos levou, com certeza, muitos brasileiros a acreditarem na sua própria participação. O tempo passou e, até hoje, que eu saiba, nenhuma espaçonave brasileira chegou sequer a extrapolar a estratosfera. O oba-oba da Globo alardeou uma mensagem subliminar de apoio à expansão dos EUA, que muitos brasileiros ingênuos incorporaram. Entretanto, isso não tirou a dimensão deste avanço extraordinário que representou a conquista simbólica da Lua pelo planeta Terra.

Nos dias de hoje é comum ver fatos localizados internamente, ou mesmo em outros continentes, transformarem-se em questões nacionais. Chego a pensar que a necessidade de mostrar uma “pátria grande” encontra suas raízes na preconceituosa superação da herança de séculos de colonização e do complexo de povo “vira-lata”. Na verdade, continua presente ente nós a necessidade de ser uma emergente liderança continental, hoje combalida por uma brutal crise financeira e uma corrupção gigantesca. É inegável, entretanto, que nos anos do governo Lula o país deu um salto rumo ao seu reconhecimento em todo o mundo, em diversos setores, porém sendo desqualificado com sua sucessora.


É a velha história de perder o pelo sem perder a pose. Nessa época, o extraordinário feito da escolha do Brasil para sediar os Jogos Olímpicos em 2016, representou um grande feito, sendo a primeira vez na América do Sul. Todavia, foi uma temeridade, pois criou uma responsabilidade (e custos) de dar frio na espinha, pois se o país não corresponder às suas responsabilidades, será uma grande vergonha e vexame. Gastou-se até agora uma fortuna que faz muita falta diante da crise financeira do Rio de Janeiro que motivou o seu governador a decretar “calamidade pública”. Pode essa loucura?

A experiência recente com o Jogos Pan-Americanos de 2007 não encoraja ninguém. O orçamento previsto em 2002 de 410 milhões chegou em 2007 em gastos reais, com um salto 8 vezes maior do que o previsto, atingindo a cifra estratosférica de 3,7 bilhões de reais. E mesmo a balela de que os investimentos iriam melhorar a qualidade de vida dos cariocas não esconde a cruel verdade de que os graves problemas continuaram insolúveis, como a “guerra civil” que ocorre nos morros, a violência cotidiana, a miséria dos hospitais, os transportes deficientes, as carências da educação, entre outros. O pior é que até hoje ninguém sabe onde foi aplicada essa fortuna (muito menos o TCU) e ninguém foi responsabilizado e punido.


Se não foi resolvido o caos carioca, então, o que sobrou para o resto do país? A fonte dos recursos deverá vir da dilapidação dos impostos escorchantes pagos a duras penas pelos brasileiros. A imprensa divulgou que a previsão de gastos com as Olímpiadas está estimada por volta de 29 bilhões de reais. Pobre de nós. Pelo exemplo do Pan, isso não resolverá os problemas do Rio de Janeiro e muito menos do resto do país.

A primeira coisa que me assustou com a aventura das Olimpíadas foi, de início, a ida para Copenhague de uma caravana de mais de cem pessoas, entre dirigentes, políticos e artistas com todas as despesas pagas pelos impostos do coitado contribuinte. Até eu, que sou bobo, estaria feliz tal como vi pela televisão, todos com a mesma linda gravata de seda pura distribuída gratuitamente. Depois, a comemoração da vitória (?) do governo Lula para sediar as Olimpíadas em um hotel de muitas estrelas, com boca livre que se estendeu por noite adentro.

Assim, até eu gritaria “Vitória!”. Resta saber em qual mundo vivemos: no mundo real dos pés no chão (diante de uma baita crise) e a cabeça no lugar, ou no “mundo da Lua” e da farra dos orçamentos...

Valmir Batista Corrêa

da Redação

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