O choque do futuro voltou ao passado

Alvin Toffler (1928-2016) foi um escritor norte-americano com doutorado em Letras, Leis e Ciência que escreveu sobre a revolução digital, a revolução das comunicações e a singularidade tecnológica. Quando ele publicou os livros “O Choque do Futuro” (1970) e “A Terceira Onda” (1980) tornou-se um futurista de sucesso mundial, de modo particular no Brasil que vivia um regime político de exceção. Era um visionário que encantava uma juventude garroteada pela censura, pelos políticos subservientes e pelas mídias financiadas pelo capital internacional que só visava ganhos escorchantes. Essa visão futurista assustava os conservadores tradicionais.


Toffler descreveu com clareza a evolução da sociedade humana, desde o tempo do predomínio das atividades agrícolas, passando pela fase industrial, até a era pós-industrial, a era da informação e da tecnologia das telecomunicações avançadas. Coisas difíceis de serem imaginadas até mesmo para os que atuavam no mundo acadêmico das universidades mais avançadas da época. Muitos leitores olhavam as obras como ficção científica e, até mesmo, como obra de autoajuda.

O coronel Alvarino (não recordo o sobrenome) engenheiro campo-grandense formado no IME (foi para a reserva remunerada por discordar dos caminhos tomados pela “Revolução de 64”), economista e advogado, então assessor da presidência da CHESF, deu-me um exemplar de “O Choque do Futuro” com a recomendação de ler com muita atenção. O engenheiro e professor Fauze Gattaz, que foi diretor do Centro de Ciências Exatas e Tecnologia e depois reitor da UFMS, presenteou-me com um exemplar de “A Terceira Onda” dizendo-me: “Decifre isso para mim”. O engenheiro e economista Mario Henrique Simonsen e o advogado e economista Celso Furtado também eram futuristas teóricos e inspiravam controversas correntes políticas.



Mas o bom daqueles tempos é que havia sonhos e esperanças. Vieram a anistia, a abertura com novos partidos (mas velhos políticos), as Diretas Já, o descalabro do governo Sarney, a Constituição de 1988, a corrupta gestão e o impeachment de Collor de Mello, a privataria e o Caso Banestado de Fernando Henrique Cardoso, o mensalão de Lula e o petrolão de Dilma, Eduardo Cunha, Renan Calheiros, Delcídio do Amaral, Jader Barbalho e tantos outros.

O sonho e a esperança se esfacelaram no mar de lama que encobriu o governo (Executivo e Legislativo, respingando no Judiciário). O povo brasileiro, hoje perambula pelas contradições de uma elite política corrompida pela ganância do poder pelo poder. Os sonhos de hoje retrocederam aos anos 80 do século XX e continuam ameaçados pelos mesmos políticos que destroçaram esta belíssima Terra da Santa Cruz. Corre-se, ainda, o risco de aparecer um novo caudilho salvador da pátria, ou um novo caçador de corruptos (como já houve um caçador de marajás).

Enquanto isso, para os radicais (fanáticos inconsequentes) qualquer prática é válida se os fins são considerados bons (para eles). Os policiais, às vezes, espancam os presos para que eles confessem os crimes praticados (ou não), os políticos praticam malfeitos em “defesa” do bem-estar da população - é o caso do “rouba mais faz” de Paulo Maluf e Ademar de Barros, ou mantém corruptos em cargos chaves da administração pública sob a alegação de que eles praticarão atos que de outra forma não seriam praticados – é o caso do deputado Eduardo Cunha na presidência da Câmara para abrir o processo de impeachment contra Dilma, e de Renan Calheiros na presidência do Senado para manter a estabilidade governamental. Sem falar que a corrupção e a impunidade continuam, seletivamente.

Em épocas de convulsões sociais mais acentuadas é comum ouvir notícias sobre tortura policial-militar, em se matar terrorista e em se desrespeitar os direitos humanos impunemente. É a segurança do Estado que está em jogo, dizem os governantes. Os guerrilheiros presos nos “anos de chumbo” dos governos militares relatam em suas tristes memórias que, quando torturados, construíam estórias conforme o direcionamento dado pelos torturadores, falando o que eles queriam ouvir, mesmo quando não plenamente verdadeiro, para diminuírem os sofrimentos físicos e psicológicos.

Nos dias atuais os beneficiados pelas “delações premiadas” seguem o mesmo roteiro, sem serem torturados. Quando presos e interrogados, eles sabem o que os questionadores querem ouvir, sabem quais as personagens devem ser citadas e quais não devem ser mencionadas. Aos poucos, vão construindo enormes e lineares redes de informações sobre corruptos e corruptores. Mas como é um jogo de cartas marcadas, nem tudo é revelado.

Depois recebem os prêmios e vão desfrutar suas prisões domiciliares em belíssimas mansões localizadas em paradisíacos locais do litoral brasileiro, com todas as regalias, apesar das tornozeleiras (para alguns). O fruto do roubo não é integralmente devolvido e, às vezes, nada é devolvido. Paulo Roberto Costa, Nestor Cerveró, Pedro Barusco, Júlio Camargo, Sergio Machado, Ricardo Pessoa e Renato Duque, entre outros, comprovam isso.

Alberto Youssef, doleiro que atua na operacionalização do sistema de corrupção desde o final dos anos 80, é um caso especial. Ele conhece bem o sistema de delação, pois no “Caso Banestado” – escândalo de evasão de divisas do fim dos anos 1990 que mandou, ilegalmente, meio trilhão de reais (no governo de Fernando Henrique Cardoso, quando o real tinha paridade com o dólar) para fora do Brasil. O magistrado responsável pelo caso na época, Sergio Moro, deu a Youssef o prêmio da delação premiada, e ele voltou a operar na lavagem de dinheiro de políticos corruptos.

O detalhe é que Alberto Youssef foi condenado a 78 anos, 11 meses e 10 dias (em seis condenações) e multado em R$ 1,89 milhão. Preso na operação Lava Jato, novamente foi premiado pelo juiz Sergio Moro com a delação premiada e deverá ser libertado em 17 de novembro, quando receberá o Green Card do Departamento de Estado Americano, podendo livremente fixar residência nos EUA com a família.

O maniqueísmo da política nacional, para justificar certas incoerências comportamentais, criou uma categorização de marginais: “bandido do bem” para aqueles que, de uma forma ou outra, propiciam ações práticas contra os petistas e seus aliados; e “bandido do mal” para os petistas e seus comparsas. Quando o delator cita nomes dos tradicionais políticos neoliberais que há muito tempo dominam o país, tais como José Sarney, Renan Calheiros, Jader Barbalho, Romero Jucá, Aécio Neves (Léo Pinheiro, da OAS, diz que pagou propina pela construção da Cidade Administrativa de Belo Horizonte, e Sergio Machado, ex-presidente da Transpetro diz que ele recebeu um R$ 1 milhão), Aloysio Nunes Ferreira e José Serra, as denúncias são desconsideradas e o delator não recebe nada em troca.

Ao que parece o crime compensa, pelo menos para os políticos brasileiros. Noel Martins, aos 86 anos, recorda os tempos da velha UDN e da “eterna vigilância”, e desabafa: “Para mil bandido é bandido, seja petista ou antipetista; seja do Comando Vermelho ou do PCC”.

O mecanismo da delação é previsto na Lei dos Crimes Hediondos desde 1990, sendo incluído nas leis específicas sobre Crimes contra a Ordem Tributária. Efetivamente a delação passou a vigorar com a Lei nº 12.850, de 2013, que prevê a redução de até dois terços da pena privativa de liberdade para quem colaborar em investigações contra organizações criminosas. A partir daí virou festa.

LANDES PEREIRA. Economista com mestrado e doutorado. É professor de Economia Política.

Landes Pereira

Economista e Professor Universitário. Ex-Secretário de Planejamento da Prefeitura de Campo Grande. Ex-Diretor Financeiro e Comercial da SANESUL. Ex-Diretor Geral do DERSUL (Departamento Estadual de Estradas de Rodagem). Ex-Diretor Presidente da MSGÁS. Ex-Diretor Administrativo-Financeiro e de Relações com os Investidores da SANASA.

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