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O encontro na Praia Brava entre Jorge Bornhausen e José Dirceu: O sarau da incoerência

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Demorei alguns dias para publicar esse texto. Tive que refletir muito.

Não nego o respeito e admiração pessoal que tenho por Jorge Bornhausen, ex-governador de Santa Catarina, ex-ministro de Collor, ex-senador da República, ex-presidente nacional de Partido Político. Um dos mais eminentes membros do Instituto Liberal.

Construiu uma longa biografia.

Gostem ou não de sua figura, é um político que sempre demonstrou a impressão de ter uma lucidez rara.

A crítica que lhe faço adiante não é pessoal ao homem culto, educado e de fino trato. Mas ao político que perdeu a bússola e trincou a biografia com um passo mal dado.

É que na retórica da vida real, seu encontro com José Dirceu no final de 2021 na Praia Brava em Santa Catarina nos revela uma realidade evidente: são seres políticos capazes de tudo para alimentar a ambição de chegar ao poder.

Não sou censor de gostos alheios.

Talvez estivessem só um querendo jantar o outro.

Ou tentando construir uma terceira via, já que não existe uma quarta.

Mas essa gente, que detém há anos a estrutura do poder no Brasil, é capaz de falar uma língua que só eles entendem.

E tentam nos doutrinar com suas falas de pastores sabichões.

Em verdade vos digo: são capazes de tudo!

Nem que para isso, tentem nos fazer retroceder cem anos.

Todos sabemos que democracia é a arte de administrar os contrários.

Mas em cada regra cabem exceções.

Só para ilustramos, temos exemplos e mais exemplos na história universal de verdadeiros estadistas que nunca flexibilizaram seus princípios e fundamentos.

Churchill e Franklin Delano Roosevelt, foram os maiores políticos do século passado.

Mas sempre se negaram peremptoriamente a sequer conversar, mesmo que forma epistolar ou diplomática com o Adolf Hitler.

É que existem antagonismos tão profundos que nunca se unem, tal qual a água e o azeite.

São alianças que duram menos que uma flor de íris.

Pensava que Jorge e Zé Dirceu eram um deles.

Ledo engano...

Todos sabemos que o Dr. Jorge é peixe piloto de Geraldo Alckmin.

E que o papo com Zé Dirceu - a cabeça da serpente - foi no sentido de criarem a indecorosa aliança Lula/Chuchu para as próximas eleições.

No fundo, no fundo, os protagonistas desta tentativa de concilio revelam o quanto Bolsonaro está forte.

Pois só uma força descomunal poderia justificar - de lado a lado - tamanha incoerência numa só sentada.

Duvido que desse encontro brote alguma felicidade que seja capaz de ser desejada aos nossos filhos.

Falidos em seus projetos ideológicos, ambos os protagonistas deste encontro bizarro podem se declarar em fim de carreira.

Cada qual a seu modo, tentou. Mas ambos fracassaram no longo prazo. Foram centelhas, mas não fizeram fogo.

São nebulosas periféricas, mas nunca chegaram ou chegarão a ser estrelas de primeira grandeza.

Faz parte.

Mas como se diz em Pomerode, “eles experimentam”. E agora, conspiram para manter seus parcos capitais políticos dando-se as mãos.

Tal como Cid o Campeador, querem ganhar batalhas depois de mortos.

Tudo pode ser perdoado (mas nada será esquecido).

Menos a absoluta falta de coerência histórica entre o discurso e a prática.

Sobretudo de um Bornahusen - já que o outro sempre foi um jaguara sem pedigree e tomado de pulgas que não tem nada perder.

A única lógica possível de uma reunião esdrúxula dessas é o desenho de uma aliança para a sobrevivência.

E para isso, tentarão induzir os incautos de terem efetuado um milagre e achado um culpado para seus próprios erros.

Tenho certeza de que ambos não beberam whisky.

Sorveram um cálice de fel que serviram gentilmente um ao outro em meio a risos cínicos. Mas regurgitaram, certamente na primeira ida ao banheiro.

Já no carro de volta, ou ao vestirem os pijamas antes de dormir, vão se rir com efusiva acidez um do outro.

Deve ser triste, no fundo, esse tipo de vida cheia de mimetismos.

Esses camaradas da vida só seguiram vivos como líderes por décadas, pela omissão daqueles (nós) que ao invés de nos metermos em política, permitimos que os políticos se metessem conosco.

Nessa ação entre os novos "amigos” colocam o Brasil (para não dizer outra coisa) na rifa e na roda.

E a conclusão que chego, é que cada qual ao seu modo, no tabuleiro do poder, é sósia do outro.

No caso do "tio Jorge" por mais respeito que se tenha ao seu passado, não dá para ignorar o presente e poupar uma biografia que se joga no precipício ético e moral no curso da prorrogação.

Os dois protagonistas desta tragicômica tertúlia, vivem no país político, enquanto nós outros vivemos no país real.

Talvez tenham alinhavado um tratado ilusório de sobrevivência, com o velório dos seus projetos já a caminho do túmulo.

Não perceberam que a morte das suas incoerências deu de frente com a revolução social que já não segue mais na sua marcha de silêncio.

Está declamada por língua clara e compreendida por todos, cuja maior, mais rica e contagiante palavra é a “liberdade”!

E dela, há de vir, também, a libertação dessa aristocracia política medieval!

Andemos de olho neles.

Mas nunca tão perto o suficiente para que um dia precisemos nos arrepender, como já aconteceu lamentavelmente comigo.

No mais, podemos perder a paciência, mas nunca devemos perder o senso de humor.

Nem temos o direito de renunciar à crítica, ainda que ácida e dolorida.

Então, vamos rir pois como no filme de Lewis Milestone, saído desse sarau do desespero de duas pessoas com uma só identidade, não há Nada de Novo no Front.

No mais, que vivam nos campos das ilusões sem fim: a aposentadoria!

O Brasil não lhes pertence mais!

“Requiem aeternam”.

E a quem sempre devotei grande respeito que não fique brabo comigo, nem com os demais que sempre lhe admiraram.

Não fomos nós que fizemos essa tremenda caca.

Afinal a desonra é um ato personalístico.

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Foto de Luiz Carlos Nemetz

Luiz Carlos Nemetz

Editorialista do Jornal da Cidade Online. Advogado membro do Conselho Gestor da Nemetz, Kuhnen, Dalmarco & Pamplona Novaes, professor, autor de obras na área do direito e literárias e conferencista. @LCNemetz

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