Como se (des)constrói uma oligarquia

21/08/2016 às 21:40 Ler na área do assinante

Esta coisa não é nova e esteve presente em todo o desenrolar da História do Brasil e em seu auge, historicamente, aconteceu no período da chamada República Velha.

Era o tempo do poder personalista dos coronéis, com seus compadres e afilhados que, junto de outros coronéis e clãs familiares exerciam com mão de ferro o poder oligárquico estadual. Sem contestação e sem piedade, esses coronéis controlaram a polícia, a máquina administrativa e os seus cargos em suas respectivas regiões.

O município era a base da política coronelista, de onde emanava o poderio dos coronéis, como explicou Victor Nunes Leal em seu clássico livro “Coronelismo, enxada e voto”.

Motivados por interesses políticos e familiares, uniam-se em torno do chefe mais poderoso extrapolando os limites municipais e dominando uma vasta região correspondente aos territórios estaduais.

As oligarquias eram, portanto, formadas pelos “Donos do poder”, de acordo com o vasto e também clássico livro de Raymundo Faoro.

Esta etapa histórica, marcada pelo patriarcalismo e pelas ações paternalistas, como características comuns desse tipo de poder, aparentemente foi interrompida na revolução de 1930, com a vitória de Getúlio Vargas e a derrota das práticas políticas tradicionais dos coronéis predominantes na Velha República.

A causa revolucionária soprou ventos de renovação na política brasileira. Mas o gérmen do poder local, estudado pela socióloga Maria Isaura Pereira de Queiróz em seu ensaio “O poder local na vida política brasileira”, manteve-se vivo com novas roupagens de antigos métodos de domínio oligárquico, superando o centralismo de poder da ditadura do Estado Novo. Hoje, ainda existem arremedos de oligarquias pelo país afora, incluindo Mato Grosso do Sul.

Assim, depois de tanto tempo e apesar do avanço histórico nas relações sociais, da modernização da sociedade e da globalização que permitem divulgar e interligar informações em tempo real, alguns “bolsões” brasileiros conservam ainda o ranço dos velhos tempos. 

Para exemplificar cito o estado do Maranhão. A história começou de forma coincidente em 1930, quando nasceu o menino José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, nome totalmente desconhecido dos brasileiros. Usou, entretanto, um outro nome como homem público e, bafejado pela de sorte, tornou-se um político de longa carreira, chegando à presidência da república. Foi ainda senador, presidente do senado e construiu um forte poder oligárquico, com enorme controle político e econômico, distribuindo favores e empregos públicos.

Além disso, mediante métodos à moda antiga, ainda conseguiu manter ao seu redor aliados políticos de projeção nacional e grandes empresários. Aliou suas atividades políticas às literárias como escritor de inúmeros livros publicados e ocupa uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.

Para quem não ainda adivinhou, refiro-me ao velho José Sarney. Finalmente, nestes novos tempos, esta oligarquia encontra-se nos seus estertores.

A trajetória e a formação da oligarquia maranhense dos Sarney, como sobrevivência danosa à democracia brasileira, pode ser acompanhada no livro “Honoráveis bandidos – retrato do Brasil na era Sarney”, do escritor Palmério Dória.

Cheguei a acreditar que o livro provocasse uma batalha judicial contra o autor pelos personagens e fatos ali citados. E olha que são muitos.

No entanto, o tempo passou e até hoje nada foi publicamente informado sobre alguma reação por parte dos citados no livro de Dória. Como o autor fez uma exaustiva pesquisa em jornais e contou com depoimentos orais, penso estar funcionando o velho ditado: “quem cala, consente...”

Creio ser este livro uma grande contribuição à compreensão da política no Brasil, com todas as suas mazelas. É surpreendente como sobreviveram as formas mais arcaicas e espúrias de praticar uma espécie de política que gera desigualdades, exclusão, distorções e corrupção. 

Desse modo, o livro de Dória merece ser lido e é, ao mesmo tempo, sugestivo para outros autores fazerem o mesmo em seus estados. Em Mato Grosso do Sul será possível encher uma prateleira de livros sobre o assunto, caso os autores tiverem a ousadia de contar essas histórias.

Valmir Batista Corrêa

Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

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