Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

De volta às letras de carreirinha

Alguns anos atrás foi exibida uma novela, “O Bem Amado”, do escritor Dias Gomes com um personagem fantástico, o cangaceiro Zeca Diabo, interpretado pelo excepcional ator Lima Duarte. O maior sonho do Zeca Diabo era aprender a escrever “de carreirinha”. Era esse o bordão característico de seu personagem, que achava bonito escrever uma letra atrás de outra, em linha reta.

Às vezes vejo o sonho desse personagem de ficção tornar-se realidade com o esforço de pessoas idosas e analfabetas, que com muita coragem e seriedade voltam aos bancos escolares em cursos de alfabetização de adultos. Com semblantes felizes demonstram com orgulho sua nova condição de cidadania ao conseguir ler e escrever.

É terrível a escuridão que enfrenta o analfabeto nos tempos atuais. Mesmo algumas medidas de cunho social, como ter título de eleitor e poder votar, não diminuem as dificuldades de enfrentamento do dia a dia, como pegar ônibus, entender letreiros comerciais, fazer compras em supermercados, etc. Mesmo assim, as pesquisas têm demonstrado que o analfabetismo tem crescido inclusive nas camadas mais jovens. Cresce ainda em todos os estados o chamado “analfabeto funcional”, aquele que consegue apenas “desenhar” o nome sem, contudo, entender o que lê e ter autonomia e lógica no que escreve.

Sem querer ser chato, ou um dom Quixote contra a modernidade, ouso tratar de uma situação que deveria ser seriamente encarada pelos nossos educadores. Começo lembrando dos velhos tempos em que a alfabetização começava com um bonito caderno de caligrafia, em que os alunos treinavam os contornos das letras bem redondinhas. Em fase posterior, os professores faziam os ditados para que os alunos entendessem as sílabas e reproduzissem as palavras corretamente. E as crianças exibiam orgulhosas aos seus pais as tarefas apreendidas na escola em cadernos limpos e encapados.

Agora, com o avanço da tecnologia muita coisa mudou e dois instrumentos, como irmãos siameses, faze parte do cotidiano estudantil: o computador e o celular que faz tudo.

Faço primeiro uma reflexão sobre o uso da calculadora na escola. Antes, havia o terror de ter que decorar a tabuada, necessária ao exercício das quatro operações aritméticas. Aliás, ainda necessárias para o desenvolvimento da vida cotidiana. Lembro quando alguns colegas usavam truques para facilitar as dificuldades de memorização, como o instrumento japonês chamado “ábaco”, imediatamente proibido pelos mestres. Entendo que este posicionamento era a consciência de que a aritmética era vital para o desenvolvimento do raciocínio. E para o bom despertar da cidadania dos pequenos, creio que seria importante eliminar do ensino fundamental o uso de celulares que “com tudo dentro” induz a “preguiça” mental nos estudantes, criando facilidades e impedindo que executem um exercício relevante para o desenvolvimento de suas capacidades cognitivas e de raciocínio lógico. Esses celulares que estão nas mãos de muitos, incluindo crianças, têm internet e aplicativos que permitem infindáveis operações, conversas imediatas, gravações, vídeos, fotos, etc., substituindo os computadores convencionais e os portáteis.

Por outro lado, a disseminação desses celulares tem colocado em cheque a língua pátria levando os estudantes a desaprendê-la (convenhamos, a linguagem dos internautas é coisa de maluco). O perigo é transformar o computador, que é um instrumento/meio auxiliar importantíssimo no processo ensino-aprendizagem, em um fim em si mesmo. Essa ferramenta muda hábitos, facilita a vida, mas cria novos procedimentos sem um suporte de conhecimento básico, de linguagem formal escrita e elementos essenciais de matemática, podendo desvirtuar a formação dos estudantes.

O pior é ver políticos e governantes usarem como panaceia da qualidade da educação grandes investimentos na compra de computadores para as escolas. Sem ser contraditório, entendo ser importante o acesso de jovens e adultos aos mais recentes meios de comunicação e interação global da rede de computadores. Eu mesmo, neste momento, estou utilizando um notebook para escrever este artigo e não vivo mais sem ele. Mas é sempre bom lembrar que computadores e máquinas em geral são ferramentas, meios e não fins e não fazem milagres.

Por isso, vejo com muito interesse as reações de algumas escolas da capital paulista, que passam a exigir de seus alunos a escrita à mão, segundo meu arquivo de recortes de jornais da Folha de S. Paulo, para evitar que “o uso frequente do computador, no colégio e em casa, [façam com que] estudantes percam a caligrafia e deixem de atentar para as normas cultas” do português. E não se trata apenas de estética na escrita, mas de desenvolvimento cognitivo e emocional. Algumas escolas, mesmo aceitando as pesquisas dos estudantes através do computador, somente aceitam os trabalhos escolares apresentados manualmente. Mesmo porque muitas dessas “pesquisas” via internet são meras reproduções e as tarefas tornam-se todas iguais, impedindo a avaliação e o acompanhamento do desempenho escolar de cada aluno.

Esta forma de ver o uso de computadores nas escolas é também uma forma de rever conceitos importantes da educação moderna, de qualidade e para a formação de cidadãos. E, por fim, deve-se ter em mente que a tecnologia deve estar a serviço dos professores e dos alunos de forma criativa, sem menosprezar o conhecimento bem fundamentado e a formação de uma massa crítica para a sociedade do futuro.

Espero que ao menos essa polêmica chegue a Mato Grosso do Sul.

Valmir Batista Corrêa

Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

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