Alternativas para a esquerda brasileira

Fala-se muito em ‘esquerda’ e em ‘direita’ na política brasileira e sul-americana, mas não há uma caracterização clara a respeito dos termos. Entretanto, chamar um conservador de esquerdista é pior que falar mal da mãe, e rotular um progressista de neoliberal é um convite à briga. Nesse contexto, o que vem a ser ‘esquerda’ e quais são suas propostas políticas? Difícil é a resposta.


Os termos ‘esquerda’ e ‘direita’ foram criados no decorrer da Revolução Francesa (histórica revolução burguesa) quando os parlamentares que se sentavam à direita do presidente da Assembleia eram favoráveis à monarquia e defendiam o Antigo Regime, e os parlamentares que ficavam à esquerda defendiam a igualdade social e a liberdade de pensamento e de mobilidade.

No bipartidarismo implantado pelos militares, os grupos de “esquerda” uniam-se pelo sentimento de oposição ao governo e foram empacotados no Movimento Democrático Brasileiro (que funcionava como frente ampla). Esses grupos ideológicos passavam por altos e baixos em termos de crescimento e atuação política. Os segmentos de apoio incondicional ao governo (que não haviam perdidos seus vínculos partidários anteriores) foram alojados na Aliança Renovadora Nacional (que atuava nos moldes de um partido-movimento). Esses políticos uniam-se pelo fisiologismo e pela vontade de participação no poder (cargos e outras benesses), sem qualquer sentimento ideológico.

Os analistas políticos até hoje não conseguiram contextualizar perfeitamente a ética política desses agrupamentos de militância, isto porque ora agiam como se fossem uma ‘frente ampla’, e ora se constituíam em um verdadeiro ‘partido-movimento’. Depois esse debate foi esquecido, por ser irrelevante frente à esdruxula estrutura partidária implantada com a Constituição de 1988 e a hegemonia petista sobre a esquerda brasileira. Agora, ao que parece, seria interessante voltar ao tema em se considerando o descrédito que os tais partidos de esquerda enfrentam, por estarem ideologicamente descaracterizados.

As eleições municipais de 2016 e a operação Lava Jato serão os principais divisores de água para um reforma partidária que acontecerá ao longo dos próximos três anos, queiram ou não os proprietários dos partidos políticos que distribuem as cotas do robusto Fundo Partidário, que aumentará despudoradamente. A paciência da passiva e conivente população brasileira está dando sinais que os políticos ultrapassaram os limites do bom senso e querem um mínimo de respeito à cidadania e aos cofres públicos.

Os ciclos de poder se esgotam periodicamente, mas não desaparecem integralmente, mantendo os rescaldos de sua hegemonia nos ciclos seguintes. É um processo histórico palpável: Michel Temer, Lula, José Serra, Renan Calheiros, Jader Barbalho, Romero Jucá, Cristovam Buarque e inúmeros outros líderes da atualidade foram forjados nos anos 60, 70 e 80 do século passado.

O primeiro, talvez o mais importante ciclo político da história recente, foi o de Getúlio Vargas que teve o mais longo período de hegemonia, em quatro fases bem típicas: a que antecedeu a Revolução de 30 onde ele tinha presença marcante na política nacional; de 1930 a 1945 – imperou o autoritarismo ditatorial imposto pelas armas; de 1946 a 1954 – observou-se uma liderança democrática com efetiva participação eleitoral; e de 1955 a 1990 – a participação político-eleitoral foi de seus correligionários (João Goulart, Brizola, Darci Ribeiro, Santiago Dantas entre outros), que o referenciavam como ideólogo maior.

Os militares brasileiros, por sua vez, sempre tiveram uma participação política, com forte influência ideológica, desde a década de 1920 com o Movimento Tenentista e a Coluna Prestes. Depois vieram a Revolução de 30, a Revolução de 32, a Intentona Comunista, a derrubada de Vargas em 1945, a eleição de Eurico Gaspar Dutra, a criação da Escola Superior de Guerra, as candidaturas presidenciais do Brigadeiro Eduardo Gomes e do General Henrique Lott, culminando com a “Revolução de 64” sob a liderança dos generais Castelo Branco e Golbery do Couto. A influência política desse estamento estendeu-se, diretamente, até o início dos anos 90.

Os movimentos de esquerda também remontam à década de 1920 (talvez antes se considerado a participação dos anarquistas ao término da Primeira Guerra Mundial), inclusive com a criação do PCB e o efetivo comando de Luiz Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança. Os comunistas, distribuídos por vários grupos e tendências, mantiveram a hegemonia da esquerda até a década de 60, quando perderam a influência no movimento sindical, devido a várias estratégias errôneas.

Com o aparecimento de Lula e os trabalhadores do ABC paulista a hegemonia das esquerdas passou para o PT.

A socialdemocracia brasileira, ao contrário da europeia, nunca representou um movimento de esquerda. Ao contrário, sempre se posicionou à direita (no máximo centro-direita, em alguns momentos), basta observar a atuação do PSD dos anos 40, 50 e 60; o PDS foi o sucessor da ARENA, o PSDB uma dissidência do PMDB e o atual PSD (de Kassab) atua pelo centro, ora à direita e ora levemente à esquerda.

Agora os políticos da oposição precisam se posicionar frente à opinião pública, e duas alternativas se apresentam para as chamadas “esquerdas”: atuarem como uma frente-ampla sob a liderança de uma das siglas (e aí está o problema); ou se organizarem como um partido-movimento (o que não será fácil dado às diversidades de comportamento dos vários segmentos). Um reagrupamento de siglas é quase impossível devido à distribuição das cotas do Fundo Partidário, que ninguém quer perder.

Em 1966 Carlos Lacerda (UDN) liderou uma frente ampla junto com Juscelino Kubitschek (PSD) e João Goulart (PTB). Mais tarde receberia o apoio do MDB, de organizações sociais da região do ABC paulista e do movimento estudantil. O general Costa e Silva proibiu as atividades da Frente Ampla, esvaziando o movimento.

A Frente Ampla uruguaia, uma coalizão eleitoral de centro-esquerda integrando vários partidos e organizações da sociedade civil, fundada em 1971, é um bom exemplo. A FA era liderada por Líber Seregni que tinha por lema: “Com o povo tudo, sem o povo nada”. Com 45 anos de existência na última eleição reelegeu Tabaré Vasques para um segundo mandato presidencial, depois de um mandato de cinco anos de José Mujica, prometendo manter a unidade do movimento.

A direita também não está muito tranquila e enfrenta turbulência na distribuição do butim governamental. PMDB, PSDB, DEM, PSD, PDT, PPS, PRB e os demais convivem, mas não chegaram a um acordo satisfatório. Tem muita disputa e desentendimentos para serem acertados no futuro próximo.

O socialismo democrático ainda é a meta para milhões de brasileiros que sonham com igualdade de oportunidades, liberdade para pensar e trabalhar por melhor qualidade de vida, fraternidade sem violência e sem corrupção. “Navegar é preciso”. Os exemplos de organização partidária (temporária) que acontecem na Espanha e na Grécia também estão sendo examinadas pelas lideranças locais.

LANDES PEREIRA. Economista com mestrado e doutorado. É professor de Economia Política.

Landes Pereira

Economista e Professor Universitário. Ex-Secretário de Planejamento da Prefeitura de Campo Grande. Ex-Diretor Financeiro e Comercial da SANESUL. Ex-Diretor Geral do DERSUL (Departamento Estadual de Estradas de Rodagem). Ex-Diretor Presidente da MSGÁS. Ex-Diretor Administrativo-Financeiro e de Relações com os Investidores da SANASA.

Siga-nos no Twitter!

Mais de Landes Pereira

Comentários

Notícias relacionadas