João Henrique de Miranda Sá

Poeta, escritor, escultor, ator, pintor, fotógrafo, idealizador e realizador de elementos arquitetônicos inusitados, objeto e fruto da arte, mais um daqueles que amam e fazem arte, assim como fazem... amor.

Em Terra de Cego Quem Tem Um Olho é Rei - Até quando a cegueira?

Quando perceberemos que somos um só?

Há algum tempo aprendi que, num trabalho qualquer, mesmo numa conversa, troca de ideias, a sobreposição de um ponto de vista ao outro, ou aos demais, é contraproducente.

A experiência e o vidão, mostram que em toda opinião há serventia. Talvez algo que lhe pareça uma sandice hoje, amanhã possa lhe servir de argumento ou de partida para uma linha de raciocínio, base de uma postura, alimento de uma mudança.

Ansiamos, teoricamente, dizemos que queremos conhecer as coisas da Natureza, das relações, dos negócios de forma plena e efetiva. Mentira!

O conhecimento pleno e efetivo, seja lá do que for, demanda que tal coisa, fato ou contexto, seja vista de todos os ângulos possíveis. Se isso for realmente verdade, o ponto de vista que tem, a descrição que faz da coisa, fato ou contexto, a pessoa cuja opinião é contrária à minha, deveria ser por mim valorizada, jamais rechaçada ou ridicularizada, como fazemos com quem pensa diferente de nós.

Considerando que cada ser humano é um universo distinto; considerando as motivações particulares de cada indivíduo, rechaçar opinião distinta pode configurar a rejeição de um ponto de vista da coisa à qual não tenho acesso. Percebem que eu perco?

Tal ponto de vista, opinião ou descrição que ora não têm serventia para mim, certamente caem como uma luva para outros muitos. Um dia, provavelmente me servirá também. Estou convencido de que, inclusive as opiniões e posturas reprováveis, indignas e inaceitáveis, são úteis. Sim. Pois elas nos permitem conhecer a ausência de limites da mente humana.

Saber considerar a opinião alheia, hoje é um talento raro, e só se beneficia quem possui essa capacidade. Enriquece a bagagem, amplia a tolerância, faz-se sábio.

Quando olhamos rapidamente uma rede social ou observamos o tom e a direção das discussões, por exemplo, sobre o panorama político atual, o que percebemos são gladiadores, donos de verdades, certezas e opiniões absolutas.

Será que é assim que vamos sair de onde estamos? Nos engalfinhando porque um conhecido, de um lado, diz que vê tal coisa de uma forma, e eu, de outro, a vejo de outra forma. Como a imagem clássica de dois sujeitos dispostos em extremos opostos de um algarismo numérico; um quer matar o outro por que o primeiro diz ser o número nove, do outro lado, o seu opositor diz ter certeza de se tratar de um seis... os dois estão, de lado certos, de outro errados...

Estamos muito longe ainda de nos perceber unidade. No nosso egoísmo, somos incapazes de perceber que, apesar de ser um indivíduo, faço parte de um grande coletivo chamado Humanidade.

Somos tão egoístas, que, enquanto organismo uno, devido ao comportamento inapropriado de muitas de suas “células”, vemos colapsos em todo o mundo – guerras, genocídios, conflitos e aberrações – frutos dessa incapacidade, numa analogia amarga, gerando cânceres em muitos de nossos tecidos.

Num organismo sadio, célula de osso, vira osso; célula de cartilagem, vira cartilagem; célula de músculo, vira músculo. Não só isso. Cada qual assume seu papel neste complexo conjunto de sistemas, compostos de tecidos diversos, em harmonia.

Talvez um dia nos damos conta de que somos todos uma coisa só.

Que o ponto de vista do meu oponente é sim, muito útil a mim, mesmo que neste momento eu não perceba.

É preciso que pelo menos aprendamos a nos respeitar. A tolerar que o “esquerdinha” ou o “direitinha” respire livremente, cumpra seu papel na sociedade. Diferente do meu? Claro, não fosse assim eu não teria serventia alguma...

Você já pensou que seu oponente lhe dá utilidade nesse mundo de cegos e moucos? 

João Henrique de Miranda Sá é jornalista, escritor e redator
67.98126-4663

João Henrique de Miranda Sá

Poeta, escritor, escultor, ator, pintor, fotógrafo, idealizador e realizador de elementos arquitetônicos inusitados, objeto e fruto da arte, mais um daqueles que amam e fazem arte, assim como fazem... amor.

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