O legado da irresponsabilidade

11/02/2017 às 10:32 Ler na área do assinante

Recentemente voltaram aos noticiários as questões relativas ao legado da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Veio à luz a emblemática situação do Estádio do Maracanã. Reformado para a Copa de 2014 ao custo de mais de R$ 1,3 bilhão aos cofres públicos, serviu à abertura e encerramento das Olimpíadas e hoje se encontra sem dono e sem responsável, em abandono total. O caso do Parque Olímpico do Rio de Janeiro também é lamentável. Com suas instalações abandonadas e depredadas. Triste história do glamour ufanista de um Brasil que não sabia viver a sua realidade.

 Alguns desses estádios foram construídos, superdimensionados, onde não haveria futebol para mantê-los depois da Copa, a exemplo do Mané Garrincha em Brasília, cuja taxa de ocupação é de cerca de 20%, e do Estádio de Cuiabá com 13% de ocupação. Para se ter um parâmetro de comparação, estádios na Espanha tem cerca de 70% de ocupação e a Alemanha mais de 90%.

Nas outras infraestruturas, com maior efeito positivo para a população, como as de mobilidade urbana e aeroportuária, muita coisa ficou pela metade.  Nossa vizinha Cuiabá é um dos mais pródigos exemplos. A prometida  despoluição da Baia da Guanabara, talvez fique a esperar por outra Olimpíada.

As Copas do Mundo, realizadas de maneira mais econômicas em outros países, também apresentavam balanços negativos, o que poderia ter sido aproveitados pelo Brasil, mas o ufanismo irresponsável prevaleceu. Era a época de gastar por conta do "ouro dos tolos" do pré-sal e de marcar projetos de poder.

Nosso país é pródigo em exemplos dessa natureza. Apesar das nossas imensas carências sociais e de infraestrutura, somos grande produtores de elefantes brancos e de esqueleto de dinossauros inacabados, marcas das irresponsabilidade de muitos administradores públicos, apesar das restrições impostas pela Lei de Responsabilidade Fiscal.

Não entendem que governar é "resolver problemas" como indicam as boas recomendações da gestão pública responsável, mas sim "fazer obras", celebradas de preferência em concreto armado para deixar a marca pessoal dos governantes, ou outras externalidades, tanto é assim que quando novos governantes são eleitos, as obras dos governantes anteriores tendem a ficar abandonadas.

 Até os marcos das obras, muitas vezes são consagrados em concreto, como em recentes administrações de Campo Grande (MS).  As obras foram até numeradas em totens, e o pior, um prefeito dando sequencia aos números do anterior, em um autêntico estelionato político. Talvez daqui a uns mil anos, algum arqueólogo que por aqui escave, poderá ficar intrigado com uma grande civilização que por aqui existiu, que tantas maravilhas construiu, mas não deixou outras marcas para a civilização, além dos marcos.

Muitos devem lembrar do Morenão de ontem e de hoje. Com capacidade para quarenta e cinco mil torcedores em um Estado que não tem futebol, e sempre representou um enorme ônus financeiro para a UFMS, o que resultou no seu sucateamento, só agora parcialmente recuperado para o próximo campeonato estadual.

Temos também a sucata da antiga rodoviária, inaproveitada, e o esqueleto em concreto e aço da rodoviária que não se concluiu na região da Cabreúva, por inadequação de localização.  Temos a infraestrutura do antigo Trem do Pantanal também abandonada e depredada.

Para consagrar esse processo de decisão sobre prioridades, temos o Aquário do Pantanal.

Fiquei encantado com a ideia desse atrativo para o turismo de passagem e de eventos em Campo Grande, mas não aprovaria o gasto de um centavo de dinheiro publico para esse empreendimento, afinal um aquário vale quantos Centros de Educação Infantil que a cidade continua esperando? Felizmente começam a correr notícias de negociações para que uma empresa termine a obra por conta própria e seja ressarcida com os rendimentos da visitação. Ufa, até que enfim, de volta ao que deveria ser o começo.

Fausto Matto Grosso, membro do Movimento por uma Cidade Democrática

da Redação
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