A diferença crucial entre os dois grupos que pedem a saída de Michel Temer

O que nos separa não é uns carregarmos bandeiras bicolores e outros, bandeiras de uma cor só. 

Nem lançarmos, uns, palavras – e, outros, rojões e coquetéis molotov. 

Ou os de cá fazermos discursos inflamados, enquanto os de lá ateiam fogo ao Ministério da Cultura.

Separa-nos uma vírgula.

Naquele canto do ringue estão os “Fora Temer”. Neste aqui, os “Fora, Temer”.

Os foratêmer (vamos chamá-los assim, porque ali o que interessa é o som, não o sentido) não querem que alguém se vá, mas que alguém volte.

O seu “fora!” é uma invocação dissimulada, um “vinde” que não ousa dizer o nome.

Os “Fora, Temer” (com a vírgula, elitista, destacando o vocativo) querem que seja afastado o presidente que se mostrou indigno do cargo, e outro seja eleito em seu lugar – e esse outro ainda não se sabe quem é, não é ninguém previamente ungido, não é um predestinado. 

O novo presidente está ainda no futuro, não já no passado.

Os foratêmer querem de volta o poder que perderam - aquele que, uma vez conquistado, nunca mais há de ser devolvido, pois lhes pertence por direito divino - porque são os mais justos, os mais dignos, os únicos capazes.

Os “Fora, Temer” querem que seja afastado aquele que traiu, burlou a lei, mentiu, se cercou de corruptos quando tinha o dever afastar-se deles. 

 Aquele que com o lábio superior bradava não compactuar com o crime, e com o inferior sussurrava conchavos subterrâneos com criminosos.

Os foratêmer creem (fingem crer) que o vice-presidente que elegeram é o responsável solitário pelos desmandos, irresponsabilidades e incompetências dos últimos catorze anos, e que a crise é culpa inteiramente sua.

Os “Fora, Temer” sabem que o vice-presidente em quem não votaram é o responsável solitário pela manutenção das práticas nefastas que deveriam ter sido banidas, e que o aprofundamento da crise política, em função disso, é culpa inteiramente sua.

Então, querem (queremos) todos a mesma coisa? 

Não. 
Não podíamos querer coisas mais distintas.

Queremos “Fora, Temer” para que as mudanças ocorram, para que o ar se renove, para que um grande expurgo nos livre desses políticos tóxicos, dessa zica pior que a zika, que transformou parte da população num bando de anencéfalos.

Os foratêmer querem dar uma segunda (uma terceira) chance ao erro.


Essa vírgula é que faz toda a diferença entre os que se dispõem a uma árdua caminhada montanha acima e essa gente hipnotizada pelo abismo.

Eduardo Affonso

Eduardo Affonso

É arquiteto no Rio de Janeiro.

Siga-nos no Twitter!

Mais de Eduardo Affonso

Comentários

Notícias relacionadas