Não dá pra acreditar num ‘deus’ que mente no banco de réus

Eu bem que gostaria de, décadas depois, ainda estar lutando pelas mesmas causas - anistia, eleições diretas.

Mas sou ateu.

Ateus têm a estranha mania de não acreditar em palavras divinas, em verdades eternas.

Anistia, por exemplo, tanto pode ser boa num momento (uma forma de perdoar para pacificar o país) como péssima em outro (uma forma de deixar impunes os corruptos).

Eleições diretas podem ser a expressão máxima da democracia (quando são um jogo limpo, constitucional) ou uma rasteira nela (quando um truque sujo, casuísta).

Gostaria de ainda ser de esquerda, mas não consigo mais acreditar num salvador único, um ser onisciente e que nada sabe, que criou o Brasil a partir do zero em oito anos (nunca antes neste país houvera um Brasil, era tudo ilusão) e não descansou desde então.

Não consigo crer nos milagres da transposição de rios que não saíram do lugar, na multiplicação de miseráveis que deixaram a miséria para continuar nela, na transformação de dinheiro público em benesses privadas.

Não creio em uma divindade que escreva o justo por linhas corrompidas, que tenha razões que a razão abomina, que caminhe sobre as águas com lama até o pescoço.

Ateísmo não é fé cega: é dúvida afiada.

Duvido de uma divindade que defenda os trabalhadores aumentando o desemprego. 

Que melhore e distribuição de renda com mais recessão. 

Que tente vencer o racismo velado com o racismo explícito. 

Cuja política para drogas inclua cracolândias. 

Que promova a transubstanciação da educação em doutrinação ideológica. 

Que coopte artistas e conceba a cultura (transgressora e crítica por natureza) como massa subserviente.

Não creio numa divindade que tenha outros planos que não sejam os mais justos, os mais limpos.

Nietzsche teria dito que não concebia um deus que não soubesse dançar. 

Eu não concebo um que precise mentir no banco dos réus.

Eduardo Affonso

Eduardo Affonso

É arquiteto no Rio de Janeiro.

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