Mulher mais ‘macho’ que muito homem

A história da região mato-grossense como ‘história de um povo armado’ foi marcada pelo surgimento de um fenômeno não raro na história do Brasil, mas muito pouco estudado e compreendido: o banditismo. Não me refiro aos dias de hoje, embora pareça.


De fato, o estado de Mato Grosso foi conhecido durante quase toda a primeira metade do século XX como ‘terra de bandidos’. O banditismo floresceu na região com características endêmicas, a ponto de se equiparar ao fenômeno do cangaço nordestino. No entanto, tal como a história da própria região, o banditismo mato-grossense e os seus expoentes são menos conhecidos que Lampião, Corisco e outros cangaceiros.

Raramente o banditismo foi visto como um componente significativo na compreensão histórica. Pelo contrário, era um elemento desclassificado e invisível na formação de uma sociedade. Os bandidos foram um segmento marginalizado da sociedade, sempre perdedores numa disputa com vencedores.

Mesmo nos documentos produzidos pelas instituições e setores responsáveis pela segurança pública, os bandidos estavam sempre envolvidos em causas perdidas, em conflitos sociais e políticos, por exemplo, em disputas e conflitos por terra, ou mesmo em contendas políticas ou revolucionárias. Na verdade, às autoridades admitir o descontrole sobre os marginalizados e criminosos seria confissão pública de fracasso.

Todavia, quem ousou romper este entendimento simplificado foi o historiador Eric J. Hobsbawm, que estabeleceu um novo modelo de explicação, mostrando uma categoria para a história social: o “bandido social”. Para Hobsbawm, a questão do banditismo social é universal, com raízes em sociedades agro-pastoris e “mobiliza principalmente camponeses e trabalhadores sem terras, governados, oprimidos e explorados – por senhores, burgos, governos, advogados ou até mesmo bancos” (Bandidos, p. 13).

No caso de Mato Grosso, o banditismo desenvolveu-se com mais intensidade nas zonas de pecuária (Pantanal e sul do estado), assim como se manifestou nas mais diversas formas de relacionamento com o latifúndio pastoril, com os “coronéis” fazendeiros e com a população sertaneja. Identificavam-se no uso da indumentária comum aos peões que lidavam com o gado e no uso obrigatório da arma branca ou de fogo que aproximava o vaqueiro do bandido na convivência diária com a violência, além do nomadismo e da vida rústica do campo. Além do mais, o banditismo sempre esteve vinculado à concepção machista da sociedade. Porém, todas as regras têm as suas exceções.

No cangaço nordestino, por exemplo, ficou famosa a participação feminina no bando de Lampião, com Maria Bonita, Dadá, e outras mulheres. No entanto, apesar da visibilidade que tiveram, esta participação ocupou uma posição secundária, sempre à sombra de seus “homens”. Assim, o banditismo mostrava de forma acentuada o prestígio do homem sobre a mulher, em especial nas funções de comando.

Em Mato Grosso, nas primeiras décadas do século XX, apareceu uma mulher comandando um bando armado. Aliás, um acontecimento muito pouco conhecido na história regional. Foi a saga de Maria Aparecida Belmonte, uma gaúcha com o apelido de Capitoa, e que comandou com pulso de ferro um grupo de bandidos na região sul. Capitoa lutou na revolução de Gumercindo Saraiva (Rio Grande do Sul) em 1893, ao lado do marido e, após a morte deste, vestiu sua farda e comandou a própria tropa. Depois da refrega, dirigiu-se com alguns companheiros revolucionários para Mato Grosso, onde chefiou um grupo de bandoleiros que dominou a vasta região dos rios Brilhante, Perdido e Imbirussú.

Esta história curiosa e ao mesmo tempo fantástica não ficou no limbo da memória, graças aos esforços e ao trabalho excepcional de coleta de informações sobre a gente da fronteira, feito pelo mais importante folclorista e pesquisador sul-mato-grossense, Hélio Serejo. Em depoimento, Serejo afirmou que seu trabalho foi escrito a partir de levantamento criterioso de informações orais de antigos moradores da fronteira. E, no caso de Capitoa, a história está registrada em seu livro 4 contos.

Serejo descreveu a “bandida” Capitoa: de “estatura baixa, morena-clara, cabelos negros compridos, olhos levemente esverdeados, voz grossa, autoritária e rompante, andar nervoso demonstrando constante insofreguidão. Mantinha, invariavelmente, o rosto pintado com carmim vermelho-violeta”. Além de contar sempre presa na cintura com uma espada e invariavelmente um revolver “44”, Capitoa usava, segundo Serejo, “uma faca e um belo rebenque, ambos com cabo chapeado de prata; lenço colorado no pescoço; bombacha enfeitada com botões de várias cores, bota; esporas tinideiras, fita de cor no cabelo; e um chapelão de vistosa barbela”. Além disso, nas festas e nos bailes onde era tolerada, ela dançava com mulheres, incorporando a posição de “macho dominante”.

Envolvida nas lutas partidárias de 1916 no sul de Mato Grosso, foi intimada pelo major Antonio Gomes a não usar mais roupas masculinas. Não acatando tal ordem, foi presa pelo mesmo major, que além de raspar seus cabelos, tirou-lhe a indumentária masculinizada e expulsou-a com seu bando para fora da região.

Conta-se ainda que Capitoa, por volta de 1924, cuidava de um bolicho em Campo Grande, e depois disso a sua história de “bandida” esvaiu-se no tempo, sem continuidade.

Foi este um caso extraordinário que desvenda o papel das mulheres numa sociedade violenta, onde imperou a “lei do 44”.

Valmir Batista Corrêa

Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

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