Argamassa, suor, tijolos e muito amor

Entre tantas possibilidades que a vida me deu, jamais me passou pela cabeça sequer chegar perto de uma colher de pedreiro, baldes de tinta, tijolos, cimento, areia, nem nada dessas coisas de construção.

Areia, só a da praia; colher era só pra sobremesas que eu sempre amei, tais como os Ovos Nevados feitos com especialíssimo carinho e desenvoltura pela minha mãe quando eu ainda morava com ela e a Mousse de Morango com calda, onipresente, obrigatória em todo Natal.

Tinta? Sim! Fiz por algum tempo, aulas de pintura em porcelana que ficaram na história e na memória, pois de todas as peças por mim finalizadas, simplesmente não restou nenhuma, todas quebraram! Ás vezes penso que sonhei que, por um tempo, fui uma artista dos traços finos e delicados. Na certa, era o destino me mostrando que eu tinha sido escolhida para o time das desbravadoras, isso sim! Eu é que não sabia de nada ainda, apenas desconfiava. Mesmo assim, não dava bola.

Em matéria de construção, adorava montar grandes obras com aquele brinquedo de infância de blocos de madeira que imitavam tijolos, entradas de castelo, tinham até torres e telhados vermelhinhos para compor o cenário. Quem lembra?

Nasci com gosto pela estética, pelas formas inusitadas das construções, sempre folheando com interesse as “Casa e Jardim” e “Casa Cláudia” que meus pais traziam da banca de revista todos os meses. Não é à toa que Brasília, pra mim, é A cidade quando o assunto é desafio e arrojo arquitetônico.

E nisso, passaram-se os anos e isso tudo caiu no esquecimento, até que chega o ano de 2014, 2015... e é aí que tudo começa a fazer sentido. Que a ficha cai. Eu realmente acredito que não se pode fugir do destino, em termos gerais. No meu caso, a vida me encaminhou pra uma das minhas “obrigações”, um dos meus maiores desafios, que é ter um sonho transformado em realidade.

Explico.

Ter um lugar abençoado para viver é realmente o sonho de muita gente. Porém, fazer dele um lugar habitável faz grandes empolgados desistirem diante das muitas dificuldades naturais que o processo traz em si.

Como não havia opção, seguimos, eu e meu marido, o único caminho que tínhamos, que era: arregaçar as mangas, encher o coração de amor e o peito de coragem, nos munir de todo o conhecimento o mais rápido possível e literalmente, fazer do sonho a nossa realidade. E assim foi.

Abrir a clareira na mata, desenhar a planta baixa, limpar a terra, nivelar o terreno, furar os buracos para as pilastras, fazer o baldrame, colocar as telhas.... Primeira parte pronta graças a alguns anjos que nos foram enviados para nos ajudar a concluir esta primeira etapa. Tínhamos um barracão aberto! Vamos em frente? Não!!!! Acaba o dinheiro, dores pelo corpo, outros compromissos e lá se foram mais de 6 meses de sonho parado, entristecido, desmotivado, aguardando dias melhores pra recomeçar, talvez reunindo forças e renovando nossa coragem, reafirmando que aquele sim, era um sonho possível.

E lá fomos nós novamente!

Como é que se ergue uma parede bem retinha? Como se instala um vaso sanitário? Pra que serve cada cor dos fios de energia? Qual a dosagem máxima diária de relaxante muscular?

Parede, porta, janela, piso, prumo pia, fossa biodigestora, encanamento, caixa de luz, reboco, entre tantas outras palavras que até então eram só lidas. Agora saltavam aos nossos olhos, faziam calos em nossas mãos, causavam dores em nossos corpos, traziam sorriso às nossas almas e alegria aos nossos corações!

A coragem e a cumplicidade foram determinantes quando decidimos “pular pra dentro”, em pleno inverno, com paredes inacabadas, somente com o essencial – talvez menos que o essencial - para espanto de muitos e inclusive, de nós mesmos. Será que manteríamos o bom humor em situações extremas? Lembraríamos das motivações que nos impulsionaram por tanto tempo? Manteríamos a cabeça erguida apesar de tantos desafios?

Eis que em agosto deste ano, precisamente no dia 2, será nosso primeiro aniversário da casa nova! Há muito o que se comemorar, lembrar, refletir e considerar.

Não, nosso paraíso ainda não está devidamente pronto, há uma série de finalizações que estão à nossa espera, aguardando o devido momento entre tantas prioridades que uma construção feita na base da cara e da coragem exige.

Fácil não foi e não é. Porém, a sensação de assombro que volta e meia vem nos visitar quando nos pegamos a admirar pequenos detalhes e imperfeições, é indescritível. Acredito que é nesse momento que podemos olhar pra trás, suspirar e refletir sobre a famosa frase do poeta Jean Cocteau: “Não sabendo que era impossível, foi lá e fez. ”

Luciana Brandalize

Articulista e redatora que transforma sentimentos em palavras. 

Comentários