Meninos, eu vi (e vivi)

Um dos mais importantes jornalistas contemporâneos, Joel Silveira, falecido aos 88 anos em agosto de 2007, além de ter desenvolvido com brilhantismo um jornalismo investigativo na cobertura da Segunda Guerra Mundial, e de análises dos acontecimentos sociais por muitas décadas, influenciou muitas gerações de jornalistas. Segundo a Folha de S. Paulo (16.8.2007), Joel ‘tinha um faro de repórter, olhar de escritor, ideias de jovem socialista’, ajudando a fundar o Partido Socialista Brasileiro.

Publicou romances, contos e crônicas superando a marca de 40 publicações. Em um dos seus livros, ‘Meninos, eu vi’ (1967), reuniu corajosamente crônicas publicadas pelo jornal carioca ‘Correio da Manhã’, com ácidas críticas do golpe militar de 1964. Com o Ato Institucional n. 5, Joel Silveira foi preso.

Peço licença ao velho mestre para usar o título do seu livro ao encabeçar este artigo. Com emoção e nostalgia assisti na Assembleia Legislativa, na noite de 26 de junho de 2017, a uma sessão solene comemorativa dos 100 anos de nascimento de Wilson Barbosa Martins. A homenagem foi realizada pelo Instituto Histórico e Geográfico de MS e a Academia Sul-mato-grossense, contando com o apoio dos deputados estaduais.

Foi emocionante e singela. Revi alguns companheiros da época em que militei na política na década de 1980. Poucos lá estiveram. Muitos outros, que oportunamente apoiaram e usufruíram do governo de Wilson Martins, esqueceram-se de presenciar a homenagem. É o mal dos homens na política: a ingratidão.

Os discursos se arrastavam, e eu comecei a navegar nas asas da memória. Eu, professor do Centro Universitário de Corumbá na época, e outros dois professores idealistas, Celso Panoff Philbois e Eduardo Gerson do Saboya Filho, participamos de uma reunião com o pré-candidato Wilson Barbosa Martins, na biblioteca anexa ao seu escritório, na rua XV de Novembro, em Campo Grande. O sonho e a proposta feita ao candidato era romper com a prática política até então existente em Corumbá e provocar uma mudança radical na velha e histórica Cidade Branca. Voltamos de Campo Grande intrépidos, confiantes e passamos a confrontar a emaranhada campanha política da cidade, enfrentando desafiadoramente o medo e os ranços ainda fortes da ditadura militar. Não foi fácil, em especial por ser Corumbá uma área de segurança nacional e base de contingentes do Exército, da Marinha, e da Polícia Federal.

Mesmo assim, a campanha eleitoral ‘A hora é agora’, comandada pela liderança do ‘velho’ Wilson, foi uma bela festa democrática. O povo sul-mato-grossense não estava acostumado a isso. O PMDB da época representava a vanguarda e a reação corajosa à ditadura, tendo como adversários os adesistas do sistema de plantão (aliás, ainda presentes na nossa tão conturbada e deprimente política).

Em Corumbá a campanha foi sofrida, pois era preciso superar o temor da repressão militar, a intranquilidade frente ao risco de perder empregos e cargos, além da perseguição policial dos jovens militantes da oposição. Um processo foi instaurado na Polícia Federal pela colocação de cartazes do Wilson Martins e candidatos da sua chapa nas ruas da cidade. Por ser uma campanha sem recursos, os cartazes eram frutos de doações de amigos e simpatizantes e foram produzidos no Rio de Janeiro.

 Porém, o que mais dificultou a campanha foi a divisão interna do PMDB que, em Corumbá, apresentou-se com duas alas. Uma, com a chapa encabeçada pelos candidatos a deputado estadual, Joilce Viégas de Araújo, e ao senado, Antonio Mendes Canale. Contando com apenas 8 candidatos a vereador, esta ala elegeu 2 vereadores, Rubens Galharte e Valmir Corrêa. A outra chapa, encabeçada pelo polêmico deputado e candidato à reeleição, Cecílio de Jesus Gaeta, e ao senado Marcelo Miranda, apresentou-se com 21 candidatos a vereador. Desta ala, foram eleitos Luiz Alberto Pinto de Figueiredo, Vicente Alves de Arruda, Assunção do Carmo Vieira e Augusto Fernandes Gaeta para a Câmara Municipal.

Os militantes voluntários tiveram um papel fundamental sonhando com uma mudança política no estado e na cidade, composta de professores e estudantes universitários, professores da rede municipal e estadual, e muitos jovens envolvidos no processo eleitoral. Foi uma luta sensacional porque aliava posições ideológicas bem definidas, criatividade e despojamento dos que, de fato, engajaram-se no apoio a Wilson Martins.

A vitória foi uma festa, comemorada tardiamente pois, em Corumbá, Wilson Martins não foi majoritário e houve uma grande demora para que o resultado das urnas de Campo Grande fosse conhecido e confirmado. No final das contas, quando se oficializou a vitória do PMDB em Corumbá, apareceram apoiadores “do dia seguinte” em todos os cantos numa espetacular enxurrada de adesistas pós-eleições. Nunca se viu em Corumbá tanta gente de “oposição” enrustida.

Os jovens idealistas (e ingênuos) que empunharam a bandeira das mudanças desde a primeira hora ficaram a ver navios (lá na curva do rio Paraguai...). Seus sonhos esmaeceram e Corumbá, como sempre em sua história, tornou-se a mais situacionista das cidades, como ocorreu muitas outras vezes mais...

Valmir Batista Corrêa

Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

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