Eduardo Affonso

É arquiteto no Rio de Janeiro.

Masterchef: ‘se os matadouros tivessem paredes de vidro, todos seriam vegetarianos’

No próximo "Masterchef", cinco rãs, aprisionadas num aquário e sem chance de fuga, serão mortas para uma disputa gastronômica.


Nenhum dos candidatos a chef está passando fome nem terá que matar para sobreviver.
É crueldade mesmo.


Para o episódio de ontem foram mortos quatro patos - degolados, sangrados e estripados longe das vistas do público, como convém.

Ali nem eram mais patos.
Eram coxa, sobrecoxa, magret.


A esta altura, claro, as rãs já estão mortas há muito tempo (os episódios são pré-gravados). E possivelmente a edição terá a elegância de não mostrar os bichos esperneando enquanto são esfaqueados.

É pena.

Pena que morram para nada, e pena que a morte não seja mostrada em toda a sua crueza.

Seria pedagógico que todos vissem as picanhas, pernis e filés dos episódios anteriores caminhando pelo cenário, meio atordoados pelas luzes, farejando o ar, balançando a cauda.

E, como nos vídeos do Estado Islâmico ou das rebeliões em presídios - aqueles vídeos que as pessoas sensíveis não têm estômago para assistir - fossem decapitados ou se sufocassem no próprio sangue bem diante dos nossos olhos, com direito a trilha sonora de gritos e gemidos.

Após o esquartejamento, com o chão tingido de vermelho, os participantes elaborariam suas receitas, suas reduções, fariam seus preparos, seus processos, e os jurados discutiriam o ponto, a acidez do molho, a crocância.

Paul McCartney disse que se os matadouros tivessem paredes de vidro, todos seriam vegetarianos. 
Na chamada para o próximo episódio do programa, as rãs ainda estão num aquário de vidro - mas a transparência termina aí.


Amontoadas, inflam o peito, o papo, com aquele jeito levemente asmático dos anfíbios, e olham em torno com o mesmo entendimento que temos quando olhamos para dentro de nós mesmos.

Não sabem que vão morrer.

Ou, como nós, até sabem - só não imaginam quando e como.
Nem que será por um capricho humano, algo muito além da sua (e da minha) compreensão.

Eduardo Affonso

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É arquiteto no Rio de Janeiro.

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