Jorge Béja

Advogado no Rio de Janeiro e especialista em Responsabilidade Civil, Pública e Privada (UFRJ e Universidade de Paris, Sorbonne). Membro Efetivo do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB)

Temer e Maduro, unanimidades que até a urna eletrônica rejeita

Quando o assunto é eleição, urna é sempre urna, É onde o eleitor deposita seu voto. Não importa se voto-eletrônico ou voto em cédula-papel. É pela urna que se ouve a voz do povo. E dizem que a voz do povo é a voz de Deus.  Qualquer que seja ela e ainda que sujeita a manipulações e fraudes de todo tipo e gênero, a urna tem um simbologismo inefável. Violá-la é crime, é sacrilégio.


Neste domingo (30/8) e por imposição do presidente Nicolás Maduro, os venezuelanos, constrangidos, foram às urnas. E como acontece no mundo inteiro nas eleições, a imprensa estava presente para registrar o flagrante do voto de Maduro que aproveitou o momento e fez um breve e falacioso pronunciamento. Exibindo o cartão-eletrônico de votação, disse Maduro:

‘Vamos fazer a verificação do meu Carnê da Pátria para que fique registrado que eu vim votar e que meu Carnê da Pátria fique marcado para toda a vida que votei no dia histórico da Constituinte’.

Ato seguinte, Maduro injetou seu chamado ‘Cartão da Pátria’ na maquininha receptora. E na tela da minúscula peça apareceu escrito este nítido aviso: ‘A pessoa não existe, ou o carnê foi anulado’. O mundo viu. Foi a própria televisão oficial da Venezuela, pega de surpresa, que registrou a cena. Sei não. Que não foi sabotagem da imensa oposição, não foi.

O poder estatal na Venezuela, mormente o eleitoral, é controlado, é submisso e tem medo de Maduro e seus asseclas. Tal como a urna, o que aconteceu deve ter a mão do além, da espiritualidade, do que é metafísico e transcende à limitada compreensão dos humanos. Foi um duro e verdadeiro recado a Maduro. Em outras palavras: ‘Maduro, você está morto. Você não existe mais’. Ou ‘Maduro, sua validade venceu e seu registro foi anulado’. Ou este outro, mais curto, generalizado e unânime: ‘Maduro, vá embora’.

Coincidentemente, um outro que acumula 95% de rejeição do povo brasileiro, também neste domingo deu uma de ‘faz de conta’  e cometeu mais um fiasco. Temer decidiu dar uma chegadinha rápida no Rio de Janeiro. Disse que veio para inspecionar as tropas das Forças Armadas que ele, por decreto, enviou para dar mais segurança ao povo do Rio, como se os cariocas já tivessem alguma. Se Michel Temer demorou mais de 4 horas no Rio, foi muito. Deu um sobrevoo de helicóptero pela cidade, fez um rapidíssimo pronunciamento, e voltou para Brasília, para comandar a corrupção política na compra de votos para que a Câmara dos Deputados não dê autorização ao Supremo Tribunal Federal para decidir sobre recebimento, ou não, da denúncia-crime que o procurador-geral da República ofereceu contra ele.

No pronunciamento aos jornalistas e cercado de ‘papagaios-de-piratas’, tais como Moreira Franco, Crivella, Pezão e até Simão Sessim, Temer disse, sobre a operação:

"que nós a estamos preparando há bastante tempo, que ao longo desses últimos cinco, seis meses, nós temos feito em Brasília seguidas reuniões, sempre com muita discrição, tendo em vista a temática tratada, mas tratando precisamente da questão da segurança pública, e no particular, a segurança pública no Estado e na cidade do Rio de Janeiro. Esta operação se dará até 31 de dezembro de 2017, mas nada impedirá que no começo do ano nós renovemos este decreto para fazê-lo vigorar até o final de 2018’.

Temer, você ainda é o presidente do Brasil. Mas sua pessoa já não existe mais. Seu ‘carnê’ foi anulado, junto com o de Dilma, com quem você formou a chapa que venceu as eleições.

É mentira que há meses você (ou vocês) vem tratando da segurança pública, de todo o país e do Rio. A ser verdade, as reuniões que você disse que houve foram com quem? Onde e quando aconteceram? Foi naquele porão do Jaburu que você recebeu de madrugada seu amigo Joesley Batista? Quantas foram? Quem do governo do Rio estava lá? E por que você demorou tanto para agir?

Nas guerras, Temer, todos os segundos são perigosos e fatais. Temer, o bebê Arthur morreu ontem, enquanto você falava aquelas coisas aos jornalistas. Arthur foi atingido por uma bala no dia 30 de Junho passado. Nem tinha vindo à luz e foi baleado no útero de sua mãe. E um mês depois você deu um ‘pulinho’ no Rio para dizer que há meses e meses um plano de segurança pública estava sendo debatido em Brasília para preservar a vida do pequeno Arthur, da menina Maria Eduarda e de centenas de outras vidas que se perderam durante todo esse tempo?

Temer, sabemos que você é um homem preguiçoso. Que, fora da presidência, você gosta de acordar por volta das 11 da manhã. Já na presidência, acorda menos tarde.

Mas você tardou demais na prestação de socorro ao povo do Rio de Janeiro. Mas antes tarde do que nunca, não é mesmo?


Hoje, segunda-feira, 31 de Julho, o bairro da Tijuca (zona norte do Rio) amanheceu sob forte e demorado tiroteio. Eram bandidos de um lado e soldados do Exército e policiais militares do outro. Dizem que deixou gente morta.

Temer, no seu breve discurso ontem e antes de regressar às pressas para Brasília, até que você, entre muitos relatos incomprovados, fez uma afirmação verdadeira, que foi esta: ‘a maior expressão da autoridade é exatamente o povo’. Nada mais verdadeiro, Temer. Nas democracias é assim. O povo é mesmo a maior, mais forte e mais autêntica autoridade. É o povo quem manda. Os eleitos são meros mandatários.  E a autoridade popular, que está acima do presidente, não quer você, não aceita você, não confia em você. Obedeça-a, então. E faça as malas e renuncie.  

Jorge Béja

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Advogado no Rio de Janeiro e especialista em Responsabilidade Civil, Pública e Privada (UFRJ e Universidade de Paris, Sorbonne). Membro Efetivo do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB)

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