Eduardo Affonso

É arquiteto no Rio de Janeiro.

A mais nova canção de Chico Buarque de Holanda

Chico Buarque lançou uma nova canção, dia desses. Li nalgum lugar que é para a namorada nova, uma professora de Direitos Humanos, curitibana. Li nalgum lugar que é a primeira canção inédita em seis anos. Li nalgum lugar que no início da melodia há uma ‘referência inconsciente’ à ‘Polonaise em sol menor’, de Bach (e eu que achava que essa ‘Polonaise’ fosse de Chopin...).

Não importa: não quis ouvir. 
Chico Buarque é uma roupa que não me serve mais.


Se ainda sei que há uma nova canção, um novo disco, uma nova conta no instagram, uma nova namorada, é porque não há filtros anti-esse-tipo-de-coisa na minha internet. A gente acaba sabendo quem beijou quem, quem pegou quem, quem deixou o bico do seio escapar sem querer do decote, quem assinou um contrato bilionário vestindo uma camiseta regata, quem pediu nudez durante uma sessão da Câmara.

Hoje li uma crítica à canção. Que não tem nada de novo. Que é datada. Que não está à altura de quem a escreveu. Que fala de um tipo de amor que não interessa mais às mulheres.

E me ocorreu que há sempre uma grande confusão entre o autor e o eu lírico. Por mais que o autor use a primeira pessoa, existe o autor-ele-mesmo e o autor-ator, que fala por um personagem. Assumir outras vozes é que faz da escrita algo tão estimulante.

Chico Buarque era bom nisso. Apanhava do marido, fazia vista grossa pro filho ladrão, gostava da barba lhe roçando a nuca, se arrastava atrás da porta com a mão cheia de pentelhos do homem amado, armava barraco por causa da mãe prostituta, ia desesperada e nua atrás de outra mulher.

Estariam, a esta altura do campeonato, ainda confundindo autor e obra? Teria o Chico perdido a mão? Fui ver a letra.

Não, não há nada de datado ali. A letra é atualíssima. O equívoco está em colocá-la no escaninho das canções de amor.

É uma canção metafórica, política. Como aquela em que estava se guardando pra quando o Carnaval chegar. Ou a que dizia que, apesar de você, amanhã haveria de ser outro dia.

‘Quando teu coração suplicar

Ou quando teu capricho exigir
Largo mulher e filhos
E de joelhos
Vou te seguir’


Nenhuma canção jamais traduziu tão bem sua relação com a esquerda.

Eduardo Affonso

Eduardo Affonso

É arquiteto no Rio de Janeiro.

Siga-nos no Twitter!

Mais de Eduardo Affonso

Comentários

Notícias relacionadas