Escritor faz emocionante depoimento em agradecimento ao pai já falecido

Quando eu ainda era um bebê, em Paraíba do Sul (RJ), meu pai tomou uma importante decisão, aquela que mudaria minha vida em definitivo: comprar uma pequena biblioteca, com coleções de livros de diversos gêneros. Biografias políticas, romances consagrados, enciclopédias da natureza, dicionário, etc, etc, etc.


Éramos financeiramente pobres. Ele tinha pouca escolaridade e era metalúrgico na Companhia Industrial Santa Matilde, em Três Rios, cidade vizinha. Comprou aquele mundo de obras parcelando em duas dezenas de prestações, praticamente tirando dinheiro de onde não existia.

Mas, era um homem genial. Seu raciocínio foi: já que pouco terei a deixar de herança para o meu filho, deixar-lhe-ei a maior delas: LIVROS, conhecimento.

Quanta sabedoria! Como agradecer?

Anos mais tarde, quando eu já era um adolescente fascinado pela leitura, disse ao meu pai que queria ser escritor. Não sem medo de que ele me dissesse que aquilo não é profissão e que poucos são capazes de viver no Brasil daquilo que escrevem, de sua produção intelectual.

Para minha surpresa, meu pai abriu um sorriso, pegou no meu ombro e verteu seu maior conselho: ‘Meu filho, isso é ótimo! Mas, pelo menos tenha a dignidade de escrever livros que parem em pé!’

Hoje compreendo que ele não falava em obras com milhares de páginas, livros grossos, vade mecum. Falava em livros cujo conteúdo e significado tivessem relevância à literatura e à história.

A dignidade da infinitude.

Infelizmente meu pai não chegou a ler nenhum dos meus livros publicados. A brevidade de sua existência entre nós não lhe concedeu essa brisa de orgulho.

No entanto, tenho convicção e fé que, noutras esferas, meu pai acompanha cada uma das linhas que registro no Tempo e está em cada página vencida, em cada capítulo concluído, no ponto final de cada obra que carrega seu ilustre sobrenome.

Meu pai é meu guia, meu sábio.

É assim, louvando sua memória, que deixo aqui meu Feliz dia dos Pais. Curta cada gotinha da existência do seu, ok?!

Helder Caldeira

da Redação

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