Eduardo Affonso

É arquiteto no Rio de Janeiro.

Não se confunde a ‘obra’ do artista com suas posições políticas. Será?

Há uma patrulha que diz que não devemos patrulhar os artistas por suas opiniões políticas, e que o que importa é sua obra.


O Veríssimo, por exemplo, pode apoiar Dilma e Maduro, defender Lula e atacar Moro, mas sua produção literária é genial, e não convém misturar os canais. Abominar o pecado, mas amar o pecador - ou o contrário, no caso.

Pois resolvi testar hoje minha capacidade de dissociação cognitiva, catei um dos seus livros na estante (intocados há muitos anos) e fui botar em prática a teoria.

"O prefeito mais baixo será Turan Picanço, de Arraial dos Chatos, Paraná. Fez toda a campanha numa cadeirinha de rolimã depois de vitimado em lamentável acidente, quando o governador do Estado, ao dar o pontapé inicial num jogo de futebol beneficente, se enganou e chutou o Turan. Combativo, polêmico, gosta de falar com o dedo em riste no joelho do adversário. Uma vez, apertou demais o próprio cinto e teria se esgoelado não fosse a pronta intervenção de um guarda-costinha". ("Eleitos")


Não consegui rir.

Não por se tentar fazer piada com anão, mas por não achar graça alguma.

Fui em frente.

"O lançamento do edifício Torre de Babel foi feito com grande estardalhaço nos principais papiros da época. Anúncios de rolo inteiro em todas as línguas conhecidas. Como todos só conheciam uma língua, foi mais fácil."

(...)

"Quem comprasse na planta daria 10 cabritos, 300 dinheiros, dois camelos malhados e uma escrava núbia de entrada (...). Dezessete camelos núbios e 20 escravas malhadas na entrega das chaves e o saldo em prestações mensais de mirra, ouro, incenso, quibe cru e cozido, sfiha (...)."

(...)

"E aconteceu que pouco a pouco foi-se erguendo o imponente edifício com o trabalho escravo de homens do Nordeste, da tribo dos marmitas." ("O lançamento do Torre de Babel").


Não consegui rir.

Nem sorrir.

Mas podia ser implicância minha. Não estava ainda conseguindo separar criador, o homem de esquerda, defensor das minorias etc, da sua criação.

Prossegui.

"O movimento gay cresce a cada dia nos Estados Unidos. (...) Ainda está longe o dia em que o Tio Sam trocará sua cartola por um chapelão desabado - podem me chamar de Samantha..."

(...)

Quem disser que um gay nunca será presidente pode ficar todo arranhado. Não tenho nada contra os gays. Deixaria minha irmã se casar com um deles - ele é que não iria querer.

(...)

Não vou falar na fortuna que seria gasta na redecoração completa da Casa Branca. Nem no problema criado para os agentes de segurança da Presidência, que seguidamente teriam que se proteger DO presidente.

(...)

O telefone vermelho da Casa Branca - que seria trocado por um modelo antigo, preto e dourado - estaria sempre ocupado.

(...)

Imagine se a primeira administração gay americana seguisse o exemplo do Presidente Carter, que mandou a mulher Rosalynn numa viagem de boa vizinhança ao Sul. Bruce desembarcaria na América Central de botas, culote de veludo vermelho e um casaco de linho branco acinturado sobre camiseta collant. Atiraria beijos da escada do avião, passaria em revista a tropa - várias vezes - e desfilaria, gloriosamente, em carro aberto pelas ruas da capital.

(...)

A custo a Embaixada americana convencerá Bruce a não usar seu Courrèges na recepção de gala no Palácio do Governo, mas ele insistirá nos saltos altos." ("Poder gay")


Não, não há aí preconceito, estereótipo, nem a mais leve homofobia.

Nessa hora é bom lembrar que o autor é de esquerda, e a esquerda, você sabe, é inclusiva, tem a questão da ideologia de gênero...

Avancei mais um pouco na leitura.

"No futebol de rua, a partida só pode ser paralisada (...) quando passarem pela calçada pessoas idosas ou com defeitos físicos, ou aquele mulherão do 701 que nunca usa sutiã" ("Futebol de rua").


Parei por aí.

As empoderadas, os de Humanas, os progressistas e os foratêmers em geral que me perdoem, mas minha cota de revisionismo já foi preenchida por hoje.

Ainda este ano retomo a leitura do grande humorista e humanista Luís Fernando Veríssimo.

Porque temos que relevar a ideologia, e o que conta é a obra, certo?

Eduardo Affonso

Eduardo Affonso

É arquiteto no Rio de Janeiro.

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