Eu não sou ranzinza, eles é que pensam que sou idiota

Uma vez, escrevi sobre coisas que odeio, e ficou parecendo que era um hater nato, um murrinha crônico, um ranzinza profissional.


Até sou, mas nem tanto.

Tem coisas que eu adoro.

Tipo captcha, aquelas sequências de letras e números que você tem que digitar em alguns sites para provar que não é um robô ou um idiota completo.

Adoro todos os captchas, principalmente aqueles em que você nunca sabe se é um L minúsculo ou o número 1, se é um zero ou a letra O, um G minúsculo ou um 9, um S ou um Z - e não importa o que você ache que é, será sempre o que você não achou que fosse.

Você até consegue provar que não é um robô, mas eles te demonstram cabalmente que você é um idiota.

Adoro SAC 0300, em que você paga para ouvir uma propaganda infindável, depois um número infindo de opções (a sua é normalmente a 9, ‘falar com um atendente’), é obrigado a digitar o CPF ou número do cartão, e a primeira coisa que o atendente faz quando finalmente te atende é pedir pra repetir de novo (sim, ‘repetir de novo’) o número do cartão ou do CPF, porque ele não faz ideia de quem seja você.

Adoro empresas, como o Banco do Brasil, que te dão uma senha aleatória, e não permitem trocá-la. E lá vai você ter que inventar uma historinha mirabolante pra tentar memorizar algo como 1J2KZq.

(Para minha última senha, o truque mnemônico envolvia práticas bissexuais da minha avó numa loja maçônica italiana. O problema agora que mudou a senha é esquecer a antiga!)

Adoro dieta que manda comer meia ameixa no café da manhã de segunda-feira - e a outra metade da ameixa desaparece do cardápio. Será que eles acham que vendem meia ameixa na feira? Ou que eu vou mesmo desperdiçar a outra metade, ou comer meia ameixa murcha na semana seguinte?

Adoro gente que, ao telefone, quando pergunto se fulano está, em vez de dizer sim ou não, me pergunta quem é que deseja. O fato de a pessoa estar ou não estar depende de quem eu seja? E quem disse que eu desejo alguma coisa? Só quero falar com a pessoa, e olhe lá.

Adoro gente que diz que ‘fulano não se encontra’, em vez de dizer, simplesmente, que ele não está - ou que não quer atender. Sinto inveja dessa gente que se dedica, em pleno expediente, a ficar à procura de si mesma, correndo o risco - como acontece frequentemente - de não se encontrar.

Adoro gente que entra no elevador e fica na porta, com a desculpa de que vai sair primeiro. Por que, então, não entra por último?

Adoro gente que sai do elevador e para a um passo da porta, para se localizar e decidir se pega o corredor à direita ou à esquerda - e, enquanto não resolve, ninguém consegue entrar nem sair.

Adoro gente que conversa no cinema. Que fala ao celular no ônibus ou no elevador. Que bota fone de ouvido e canta como se ninguém pudesse ouvir sua desafinação. Que ronca no avião, no ônibus-leito ou no travesseiro ao lado. Que entra com 20 produtos na fila rápida do mercado, onde o máximo é 15. Que manda vídeos inspiracionais, mensagens fofas e bons dias no ‘uotiçape’.

Enfim, não sou do tipo que implica com tudo, como às vezes pode parecer. Odeio que pensem isso de mim.

Eduardo Affonso

É arquiteto no Rio de Janeiro.

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