Vida de político (capítulo 2)

O POLÍTICO NO PSICANALISTA


- Boa noite, pode se sentar, ficar à vontade. O que o traz aqui?

- O seu celular está desligado?

- Sim, e seria bom que você também desligasse o seu, para que a sessão não seja interrompida.

- Eu não tenho celular.

- Esse que está na sua mão...

- Não é meu. Não tem celular nenhum na minha mão. Quem disse que esse celular é meu ou que essa mão é minha está mentindo. Eu não tenho e nunca tive mão, nem aqui nem no exterior.

- Bem, já vi que temos uma questão aqui e...

- Todo mundo neste país sempre teve mão, por que é que eu não posso? O Aécio tem mão, e com todos os dedos, e ninguém fala nada!

- Bem, deixe-me primeiro conhecê-lo melhor. Fale-me de você, da sua infância...

- Por que você quer me conhecer? Eu não me conheço, nunca me vi. Jamais fomos apresentados. Se fomos, foi institucionalmente, e não tratamos de licitações superfaturadas, delações premiadas nem aquisição de juízes do Supremo. Eu repilo veementemente essas ilações.

- Olha, vamos colocar da seguinte forma. Você está aqui para se entrar em contato com o seu eu e...

- Posso até ter frequentado os mesmos lugares que eu, mas isso não quer dizer nada. Não há nenhuma prova de que eu tenha tido qualquer contato comigo. Eu nunca soube de nada que fiz, quer dizer, de qualquer coisa que eu porventura tenha sido acusado de ter feito. Eu não tenho obrigação de ser solidário comigo!

- Ok, nosso tempo lógico acabou, ficamos aqui por hoje.

- Tempo lógico? A consulta é de 45 minutos e ainda faltam 4. Isso é golpe!!

Eduardo Affonso

É arquiteto no Rio de Janeiro.

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