Falta um homem de bem no Congresso

Há nove anos morria o senador Jefferson Péres, o que trouxe uma profunda tristeza para os que acompanham a política brasileira. Digo, política em sua essência moral e ética. Era uma flor de lótus em meio ao lodaçal, ou seja, um homem de caráter e honrado que dignificava o decadente e desacreditado Congresso. Enfim, uma referência moral do cenário político nacional. Líder do PDT no Senado, morreu aos 76 anos ainda no vigor de combatente intransigente das causas democráticas.


Completou seus estudos universitários em 1959 em Direito, na Universidade do Amazonas. Passou a exercer a docência na Faculdade de Ciências Econômicas do Estado do Amazonas, e depois, como professor titular na Universidade do Amazonas, aliou o magistério com as atividades jornalísticas. Ampliando seus estudos, formou-se em 1967 em Administração de Empresas, pela Fundação Getúlio Vargas. Nesse período exerceu inúmeros cargos de confiança no governo e em instituições no estado.

Com o sucesso de sua carreira universitária, administrativa e jornalística, o caminho natural a ser seguido por Jefferson Péres foi o político-partidário. Em 1988 foi eleito para a Câmara de Vereadores de Manaus e reeleito em 1992. A sua atuação política permitiu-lhe galgar voo mais alto, sendo eleito em 1995 para o Senado Federal, e reeleito. Até então, era um político desconhecido da política brasileira. Eleito pela legenda do PSDB, foi crítico dos caminhos tomados pelo governo FHC, e passou, a convite de Leonel Brizola, ao PDT, e se tornou líder de bancada.

De estatura baixa, franzino, sem ser tribuno empolgante, Jefferson Peres começou a conquistar o seu lugar na tão desgastada política brasileira, por sua postura republicana e ética. Assim, mesmo filiado a um partido considerado da base aliada do palácio do Planalto, Peres teve sempre uma atitude ácida e crítica em relação ao governo Lula.  Usando como uma de suas principais bandeiras políticas a defesa visceral da ética, conquistou a admiração de muitos no Congresso Nacional e fora dele, fazendo também adversários incomodados com sua postura parlamentar. Além de um porta-voz dos interesses de sua Amazônia, Pérez foi membro do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, onde foi relator do processo que culminou com a cassação do ex-senador Luiz Esteves.

Chegou a dizer na tribuna do Senado que a “crise ética não é só da classe política, não, parece que ela atinge grande parte sociedade brasileira”. Esse pensamento refletiu, sem dúvida, a desesperança no futuro político brasileiro, tanto que acabou por anunciar em discurso o seu abandono da política. Não deu tempo.

Em 2006, tendo consciência da forte candidatura de Lula à reeleição, em defesa de seus princípios partidários, candidatou-se a vice-presidente na chapa do também senador Cristovam Buarque.

A sua trajetória política foi um exemplo, vindo a juntar-se aos grandes políticos que dignificaram a história brasileira. Foram poucos, mas fizeram a diferença.  Peres foi fiel aos seus princípios, sozinho em sua luta, como um Dom Quixote, sem alinhar-se a ninguém, sem corromper-se. Descansou Jefferson Peres. O Brasil empobreceu e o Congresso perdeu um de seus poucos baluartes.


Morreu antes de ver a política brasileira apodrecer nos últimos anos, sob o lamaçal da corrupção e do descrédito dos brasileiros.

Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

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