Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

A eterna batalha do verde contra o dragão do concreto

Campo Grande foi palco de projetos mirabolantes quando pretendeu ser uma das sedes da Copa do Mundo de Futebol de 2014. Além dos milhões que deveriam ser aplicados em obras de fachada, e da possibilidade de grandes descaminhos, como se viu em todos os lugares onde se construiu enormes estádios, viadutos e muitas outras obras inacabadas até hoje, havia a previsão de mudar radicalmente os canteiros da nossa principal avenida.

As notícias da época detalhavam um suposto projeto de revitalização da Afonso Pena, onde seriam construídos um viaduto e uma linha de metrô de superfície, além de outras mudanças muito preocupantes. Mas, o que mais chamou a atenção dos campo-grandenses foi uma proposta de alteração dos canteiros centrais da avenida, com a finalidade de aumentar o fluxo de automóveis e evitar estrangulamento de trânsito na área central da cidade. E aí morava o perigo: seria imprescindível alterar e diminuir consideravelmente os canteiros centrais da Afonso Pena e, consequentemente, as áreas verdes de gramados e árvores, incluindo os ingás quase centenários que conferem o charme da nossa cidade na sua principal artéria.

A avenida Afonso Pena é um dos mais atraentes cartões postais de Campo Grande e disso ninguém duvida. Sua beleza e sua identidade residem exatamente nessa área verde generosa e bem cuidada, dando a impressão ao visitante de primeira viagem que toda a cidade é assim também. Campo Grande já foi muito mais verde e fresca. Mas, paulatinamente, as suas árvores vêm caindo (ou sendo deliberadamente cortadas). Repararam como a cidade anda quase tão quente como Corumbá ou Cuiabá?

Pois é. Sabe-se que nos últimos anos centenas de árvores frondosas deram lugar a obras publicas e residenciais. Basta observar o crescimento urbano em bairros pobres ou ricos. De uma das janelas de minha casa, onde moro há mais de 20 anos, foi possível acompanhar uma persistente campanha de destruição do ambiente no bairro Cachoeira II, onde o alto poder aquisitivo de seus moradores permitiu que se que erguessem projetos inovadores e de baixo impacto ambiental. Mas, lamentavelmente, foi nesse mesmo lugar que se deu o triste caso do envenenamento criminoso e cruel de uma árvore de 40 ou mais anos, em frente a uma escola particular, onde se ministram aulas de educação ambiental às crianças na própria pracinha. Na mesma ocasião e no mesmo bairro, houve o caso de corte de duas árvores e o envenenamento de uma terceira, por uma grande obra particular. Tempos atrás um prefeito construiu no canteiro central da Afonso Pena uma horrenda ciclovia que quase ninguém usa. Na verdade, um monstrengo.

Mas alguns poderão argumentar que a Afonso Pena, em sua banda alta, possui um parque maravilhoso (de fato!) que desemboca em outro parque, o dos Poderes, que também possui belíssima área de cerrado muito bem preservada. Tudo bem; mas, sabe-se que não é o bastante.

O que nos parece, mesmo, é que ambiente e cultura são coisas que não têm vez em nossa aprazível cidade. Contudo, confiamos nos ambientalistas e nas pessoas sensíveis e conscientes que aqui habitam para empreender mais uma santa batalha em defesa de um patrimônio dos campo-grandenses que é a Afonso Pena.

O trânsito de Campo Grande, ainda que tenha recebido um número assustador de novos veículos circulando em suas ruas, precisa apenas ser disciplinado e fiscalizado. Sem fiscalização e penalização, prosseguirão os abusos que se vê todos os dias nas ruas. Afinal, no centro existem boas vias de escoamento e desafogo da Afonso Pena, bastando planejamento, muita fiscalização e política pública efetiva de preservação ambiental.

Caso contrário, será uma guerra perdida, para nós e para todo o planeta.

Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

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