Las Vegas e Janaúba, o contador, o vigia e as tragédias

Outro dia, em Las Vegas, um contador aposentado rompeu com um martelo as janelas de vidro do hotel e abriu fogo contra a multidão.

Tinha consigo 19 fuzis, deixou 58 (ou 59) mortos e mais de 500 feridos.

Possivelmente, não conhecia nenhuma de suas vítimas - eram pontos se movendo, anônimos, lá embaixo.

Não atirou em ninguém: apenas atirou - primeiro nas não-pessoas, depois no nada em que ele mesmo se tornara.

Nesta quinta-feira (5), em Janaúba, um vigia despejou álcool em crianças e em si mesmo, e ateou fogo.

Deixou, por enquanto, 5 mortos e 38 feridos.

Possivelmente conhecia todas as suas vítimas.

Sabia seus nomes: Juan Pablo, Ruan Miguel, Luiz Davi, Ana Clara, Heley.

Viu seu olhar de espanto, ouviu seus gritos.

Não há paralelo possível entre a tragédia de Nevada e a de Minas.

Numa, há todo um arsenal de teorias sobre o (des)controle de armas, a psiquê americana, a obsessão pelos massacres.

Na outra, apenas o choque.

Não podemos invocar o culpado de sempre (o porte de armas) - e a ninguém ocorreu, até o momento, proibir a venda de fósforos ou de inflamáveis.

Resta lidar com o fato de que circulava entre nós, inadvertido, alguém capaz de uma atrocidade assim - e que Janaúba é aqui, é qualquer creche, qualquer escola, qualquer parque, circo, shopping, vagão do metrô.

Não há nenhum estado islâmico, nenhum comando vermelho, seita satânica ou organização criminosa por trás daquele que era encarregado de vigiar a creche, de protegê-la.

E nem se pode dizer que tenha agido sozinho: ele também já era ninguém.

Logo haverá quem se defenda da perplexidade incriminando a antipsiquiatria e propondo a internação compulsória ao primeiro sintoma de distúrbios psíquicos, ou clamando por mais extintores e sprinklers.

Las Vegas e Janaúba nos lembram o quão difícil é tentar separar o joio do trigo quando somos nós mesmos o inimigo.

Eduardo Affonso

É arquiteto no Rio de Janeiro.

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