Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

O bom do capitalismo é (ainda) ser capitalista

O Banco Central divulgou há pouco tempo atrás que mais de 15 milhões de clientes da rede bancária contraíram dívidas acima de 5.000 reais. A quantidade de endividados só aumentou de lá pra cá, até porque muitos presos à juros bancários escorchantes. Não é a toa que a cada balancete bancário divulgado pela imprensa, os lucros dos bancos assumem dimensões estratosféricas. Creio que, para os banqueiros, o paraíso não está nas distantes ilhas caribenhas, mas aqui mesmo, na linha abaixo do Equador. Ainda me lembro do terrorismo verbal de um representante da Fiesp, há quase 20 anos atrás, que afirmou que se Lula chegasse à presidência da república (isso no primeiro mandato), empresários e banqueiros brasileiros migrariam em massa para Miami. Ledo engano. Os bancos e grandes empreiteiras só lucraram, sabe Deus como, melhor dizendo, hoje nós já sabemos.

Mas, é justo dizer que a fuga pra Miami, ou até pro Paraguai, agora tem outra conotação: muitos fogem de procuradores e da polícia federal.

No andar de baixo a coisa está feia e preocupante, como afirmam os dados do próprio Banco Central. O assustador é que a expansão do crédito neste país varonil chegou a 1 trilhão de reais, propiciando a extensão de prazos de financiamento, mas a ciranda dessa folia estancou de repente.  Basta lembrar o estímulo à compra de carros com prestações “a perder de vista”, e, consequentemente, o aumento avassalador do endividamento das famílias. Isso, com o apoio do governo anterior que, para atender aos interesses empresariais, impulsionou a farra consumista até com propaganda.



Num universo maior, clientes com qualquer tipo de dívida, seja pequena ou grande, já estão ultrapassando a cifra alarmante de 80 milhões de pessoas. Como isso pode acontecer? Com a expansão do crédito, foi possível endividar-se ao financiar um carro, uma casa e somar a tudo isso novas dívidas com operações de crédito como empréstimo pessoal, uso de cheque especial e o famoso rotativo do cartão de crédito. Esta ciranda financeira transformou-se em uma bola de neve de difícil e amarga solução. Para superar a inadimplência o jeito é cortar ao máximo as despesas domésticas, devolver compras não pagas e planejar uma vida simples e frugal para, por alguns anos, quitar as dívidas.

Quem caiu nesta armadilha sabe hoje que o crédito fácil é uma faca de dois gumes, boa no início e péssima com o passar do tempo. Na verdade, existe uma contradição nesta situação financeira. Por um lado, a expansão do crédito estimula o avanço da economia interna. Era comum notícias na imprensa relatando a euforia (como se viu, falsa) dos comerciantes acabando com seus estoques de fogões, geladeiras e outros bens de consumo. Por outro lado, levaram esses imprevidentes consumidores a um caminho sem volta. Era previsível, mas ninguém acreditou que isso fosse acontecer.

Parece que os bancos e financeiras ainda sugam as últimas gotas de sangue dos incautos e desesperados endividados. A todo instante, o seu telefone toca e uma voz amável e carinhosa propõe um grande negócio e vantagens com novos cartões de créditos, empréstimos fáceis e outras coisas afins. É sempre uma chateação e uma inconveniência, sobretudo nos horários de refeições ou descanso.

Num plano mais amplo, apesar dessas contínuas crises, o “mercado” segue a lógica perversa, sendo “dinâmico” e encontrando novas formas de explorar a maioria dos que trabalham e dos que pouco ou nada tem. De crise em crise, o capital (e aqueles que o detém) vai se safando e empurrando com a barriga a velha máxima: um belo dia o sistema vai pro brejo por que gera a própria destruição.

Contudo, o gigantesco tsunami da quebra do sistema vai varrer todo o planeta globalizado pelo capital e, ainda não se sabe o que virá no seu lugar.

Quem (sobre)viver saberá?


Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

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