Bolsa Família: ruim com ela, pior sem ela

A velha história de confiar desconfiando está atormentando, nesses novos tempos bicudos, a vida de uma massa de bolsistas brasileiros, não aqueles ditos estudantis e de pesquisa, mas uma imensa massa de desesperançados e prováveis eleitores ou cabos eleitorais. Refiro-me aos beneficiários da ação política mais importante dos governos passados e deste também, o “ovo de Colombo” eleitoral contemporâneo: o programa Bolsa Família que segue corroído pela inflação. Mas, como dizia uma velha tia sobre seu marido ranzinza: ruim com ele, pior sem ele.

Mesmo com garantias dos governos, que não admitem qualquer fragilidade em seu programa, segundo pesquisa do Ibase 28% dos beneficiados com a Bolsa Família, chamada de programa de segurança alimentar, temem (e com muita razão), o retorno tenebroso e assustador da fome cotidiana. E olha que esta bolsa, na verdade uma bolsinha, “quebra um galhão” enorme. Quem já passou fome sabe como é duro olhar para os filhos e não ter o que comer. Esse é o medo que se avizinha. Além disso, a mesma pesquisa do Ibase concluiu que no universo dos beneficiados somente 17 % atingiu a situação de segurança alimentar. É muito pouco para tanto esforço.

É claro que esta aflição não se compara ao estágio de milhões de pessoas da Ásia e África que estão morrendo de fome a cada minuto. Mas o duro é saber que mesmo recebendo a ajuda do governo, uma parcela dessas famílias não conta com todas as refeições diárias. Segundo ainda o Ibase, 21 % dos pesquisados encontravam-se nesta inaceitável e terrível situação. Além do mais, é assustador que milhares de famílias abaixo do nível de pobreza sequer são beneficiados com os programas oficiais.

Ao mesmo tempo, renasce um monstro há muito esquecido ou até mesmo desconhecido dos mais novos, a indesejada inflação, que não é um problema brasileiro, mas, com a globalização, é um problema atual e mundial.

De fato, a perspectiva inflacionária (já é um dado real e assustador), não pode ser minimizada. Pelo contrário, parece que a sociedade brasileira não está preparada para enfrentar esta situação, esquecida da famosa maquininha de remarcar preços dos supermercados, que era um mecanismo de defesa e manutenção dos lucros de empresários e comerciantes. Explico melhor: no passado, para enfrentar os avanços da inflação, os mais diversos setores da economia capitalista praticavam aumentos de preços preventivos, como forma de resguardar os seus investimentos e margem de lucros. Era um mecanismo de aumento de preços com base na inflação passada, e antes até dos índices atualizados, provocando terrível e malfadada indexação de preços. É o que os economistas chamam de inércia de inflação.

Parece, infelizmente, que isto já está acontecendo de novo neste Brasil, que alguém algum dia disse que era do futuro. Eu prefiro o presente, pois ninguém pensa em comer no futuro. A fome não espera

A disparada dos Índices Gerais de Preços (IGPs) já tem mexido com o bolso dos consumidores. E o próprio governo, com certeza, é um dos vilões da inflação com os constantes reajustes de tarifas públicas. Se o governo não descarta a sua sanha desmedida em arrecadação tarifária, garfando o bolso do desprotegido cidadão, como ficará então o resto da economia nacional? Sai debaixo.

Hoje, o dinheiro que se gastava antes numa feira livre não dá para encher a metade das sacolas do consumidor. Os aumentos são visíveis nos produtos hortifrutigranjeiros, além dos nossos velhos conhecidos arroz e feijão, só para listar alguns.

Coitado do pobre que depende do Bolsa Família que sente o peso deste infeliz e difícil momento. E o resto da população também, em especial as camadas mais sofridas da população. A nova (e já rebaixada) classe média C e D deixou de pagar as prestações da moto, de comprar sua linha branca de eletrodomésticos e fazer seus puxadinhos.

O sonho acabou para muitos e só resta esperar para ver no que vai dar.

Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

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