Finados, Defuntos e Mortos

Sim, eu sou um pecador

Bons, éramos todos.

No século II, cristãos rezavam pelos falecidos visitando os túmulos de seus mártires mortos, não havia um dia certo, os cristãos o elegiam espontaneamente. A Igreja, no entanto, a partir do século V dedicava um dia do ano para orar por todos os mortos, não só os mártires, mas por todos aqueles por quem ninguém rezava, ninguém lembrava. 

Somente a partir do século XIII estabeleceu-se o dia 02 de novembro para a celebração dos nossos mortos. Conhecido comumente como Dia de Finados, também é chamado como “Dia dos Fiéis Defuntos” ou “Dia dos Mortos”.

Hoje, quase dois mil anos depois, a prática é presente na mente e espírito de muitos cristãos. Louvem-se os mortos!

E quanto aos vivos? Bem, essa é outra história. Vivo é vivo, morto é morto.

A morte parece ser o marco modificador e efêmero do caráter daquele que quando vivo não merecia sequer uma réstia de respeito dos seus contemporâneos; morreu, tornou-se paradigma de “bom ser”, apesar de todas as suas falhas éticas e morais. A morte causa naqueles que sobrevivem ao defunto, uma catarse hipócrita e gentil; os sobreviventes purificam-se a partir da morte alheia, efeito de pouquíssima duração para a maioria, pois esta (maioria), logo e no curto prazo, volta sedenta para a vida de pecados e agonias autoconcedidas.

O morto, pois, é lembrado quando um vivo precisa buscar remissão movido exclusivamente pela conveniência. De sorte, não são todos assim. Há os que verdadeiramente respeitam os mortos... e os vivos, também!

Vai chegando o dia da celebração neste ano de 2017. E a peregrinação pelos cemitérios vai se encorpando movida pelo atavismo da fé, ou em nome da dignidade da verdadeira fé. 

Quem sabe?, dito que, fidelidade vem de fiel que, por sua vez, vem de fé; e a fé verdadeira não prescinde da dignidade.

Mas, afinal, quem é digno verdadeiramente do que nos é mais caro: a vida soprada por Deus. Eu não sou.

Santo Agostinho teve a coragem de registrar seu mundanismo num diário que se transformou livro: “Confissões de Santo Agostinho”. Em certa passagem lá se lê:

O Professor

"Durante esse período de nove anos desde os dezenove até os vinte e oito, cercado de muitas paixões, era seduzido e seduzia, era enganado e enganava: às claras, com as ciências a que chamam liberais, e às ocultas sob o falso nome de religião. Aqui ostentava-me soberbo, além de supersticioso e em toda a parte vaidoso. Ora corria atrás da futilidade da glória popular, até aos aplausos dos teatros, aos jogos florais, ao torneio das coroas de feno, às bagatelas de espetáculos e paixões desenfreadas, ora desejando purificar-me dessas nódoas, conduzindo aos que eram chamados “eleitos” e “santos”, alimentos com que, na oficina dos seus estômagos, fabricassem anjos e deuses que me dessem a liberdade. Seguia estas práticas, dando-me a elas com meus amigos, iludidos por mim e comigo”.

- A consciência da vida mundana e a súplica da reparação

“Gracejam de mim os orgulhosos e os que ainda não foram salutarmente prostrados e esmagados por Vós, meu Deus. Eu para vosso louvor hei de confessar meus erros. Permiti-me, eu vo-lo peço, e concedei-me que percorra com memória fiel os desvios passados dos meus erros, imolando-vos uma vítima de louvor”.

“Com efeito, Sem Vós, que sou para mim mesmo, senão um guia para o abismo? Que sou, quando tudo me corre bem, senão um pequenino sugando o Vosso leite e gozando de Vós, alimento que não se corrompe? E quem é o homem, seja quem for, se é homem? Riam-se de mim os fortes e os poderosos, mas eu, fraco e pobre, confesso-me a Vós.”

Pois, assim somos, concordem ou não. Pecadores uns, descrentes outros, mas em essência, seres vivos conscientes da penúria moral que resistimos reconhecer. Só a morte nos dará brilho esplendoroso que ofusca mentes e corações ocos nesta terra de Deus.

Um dia serei eu, e alguns virão velar-me como que quisessem esconder, escamotear nas lágrimas ou tristonhos rostos os meus e os seus pecados que a tantos ofenderam – tornam-me quase anjo mensageiro nesta hora. Mas antes terei meu corpo despido por alguém que, provavelmente, nunca tivesse conhecido em vida; e que assim seja. Nu e exposto aos olhos estranhos e descomprometidos comigo jaz, deitado e repousado em pedra fria, de alguém que, certamente nenhum regozijo ou descontentamento afetará, a não ser que esteja ele a cumprir a última tarefa do dia estafante da lida com mortos, com coisas, e prestes a retornar ao lar para merecido descanso. Querem saber? Assim prefiro o toque do estranho enfadonho em vez da exposição e manejo de esposa, filhos e parentes. 

Gosto de pensar que serei pudico até quando já morto. Eis o recado, a vontade derradeira, ainda que, afinal, não terei mais o poder da escolha nem a vergonha da nudez.

Façam tudo muito rápido. Ignorem o protocolo: velório, procissão e carpideiras plantonistas lamuriosas a custo fixo; não tenho tempo a perder.

Será a partir deste dia que terei de prestar contas ao Criador. Precisarei de bom descanso, já que terei tanto a confessar. Talvez Ele me libere de umas tantas perguntas dado que já conhece todas as respostas, e por fim, exare a sentença eterna.

Enquanto fico por aqui, bom mesmo é usufruir o que me foi dado, e suportar as vicissitudes dessa graça gozando as alegrias aleatórias e maldizendo as insolências irrogadas de gentes que jamais esperamos receber.

Sim, eu sou um pecador.

JM Almeida

João Maurino Sernaglia  Almeida Filho. Bacharel em Ciências Econômicas e Ciências Jurídicas. Professor liberal de Matemática Financeira Aplicada. Investigador da Filosofia. Investigador Criticista/Racionalista

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