Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

Eu já vi esse filme

Quando paro para pensar na situação política da Bolívia, lembro-me do clássico filme “Chove em Santiago”. Feito na década de 70 do século passado, este filme faz parte hoje da estante clássica da cinemateca política contemporânea. Retrata os últimos dias do sangrento golpe de estado ocorrido no Chile, comandado pelo general Augusto Pinochet contra o governo democrático do socialista Salvador Allende.

Através de uma ampla aliança de esquerda, a Unidade Popular chilena elegeu Allende ao governo do país, propondo uma administração socialista voltada às camadas mais pobres da população. Havia, no entanto, um forte obstáculo pela existência de uma oposição da elite chilena violenta, e por grupos de esquerda que não se entendiam. Isto fazia lembrar a piada de que a esquerda só se unia na cadeia e, ao serem soltos seus membros, cada um pegava um táxi e seguia em direção distinta, quando não oposta.    

Porém, ainda vigorava a “guerra fria”, uma insana concorrência entre interesses internacionais polarizados entre os EUA e URSS. Como os mariscos que sofriam a pressão entre a rocha e as ondas do mar, os povos pobres e subdesenvolvidos em especial da América Latina ficaram à mercê dos interesses desta política internacional.

Pobre América Latina! Basta relembrar os acontecimentos no Iraque e no Afeganistão, e outros lugares onde a política norte-americana interferiu em governos democráticos desprezando a soberania e a autodeterminação dos povos. O resultado foi a implantação de governos autoritários, com apoio direto ou indireto dos EUA, somado à conivência das elites locais e de uma população alienada e manipulada.  

As consequências desse processo no Chile foram greves infindáveis, passeatas, saques, violências, mortes e paralisação de caminhoneiros, tudo financiado pelo dinheiro norte-americano e capitaneado por agentes da CIA. E a recente abertura de arquivos de Washington, no final do governo de Obama, comprova esses fatos. O resultado foi uma tragédia inesquecível para os chilenos.

Agora, os tempos são outros, é verdade, parecendo até que a guerra fria é algo anacrônico. Creio, no entanto, que a disputa por espaços vitais e mercados pelas potências capitalistas ainda está presente, agora com nova roupagem e causando forte preocupação. O caso da Bolívia está aí para alertar que os inimigos da democracia não são coisas do passado, o mesmo ocorrendo em outros países latino-americanos. Por coincidência, são países ricos em recursos naturais e fortes mercados consumidores.

Na verdade, a história republicana boliviana sempre foi tumultuada, com violências e golpes de estado, permeada por relações preconceituosas que separam os povos indígenas das elites de influência marcadamente europeia. De fato, a disputa de poder entre o altiplano andino (predominando as populações indígenas) e a região de Santa Cruz, já produziu conflitos, mortes e golpes de estado. Basta ver a quantidade de governantes que se alternaram no poder boliviano.

O presidente Evo Morales, de origem indígena, assumiu o poder com um discurso em defesa de sua gente. O que se esperava aconteceu, aliás, desde o início de seu governo, em especial, pelo fato de sua política social ir de encontro dos interesses das elites bolivianas. Morales tem se beneficiado e fortalecido devido ao apoio popular e ao seu governo populista.  Mas, de forma paradoxal, a oposição ao seu governo cresce, especialmente em virtude da longa permanência de Evo Morales no poder, com alterações em suas leis.

Em momento futuro e não muito longe de acontecer, o desgaste de Morales acabará levando a Bolívia ao caos, pois nenhum governo populista e personalista, com ou sem apelo popular, sobrevive ao tempo.    

Por isso lembrei-me dos anos 70 e do infeliz Chile. Nenhum país apaga a memória das tragédias de sua história, especialmente quando a violência se escancara. Seja a violência das armas e derramamento de sangue, seja a violência de uma pobreza endêmica que mata pessoas um pouco mais devagar.

Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

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