
O caso do cachorro Orelha, a revolta nacional e o desafio de consertar o Brasil
30/01/2026 às 12:43 Ler na área do assinante
Os psicólogos concordam que crianças desenvolvem um senso básico do que é “certo” ou “errado” já aos 3 anos de idade, quando começam a compreender regras sociais e a identificar quando alguém age de modo "errado".
Portanto, qualquer adulto mentalmente saudável sabe que é extremamente errado torturar até à morte um pacífico e inocente cão comunitário como o Orelha. O episódio é revoltante, claro. O que me surpreendeu positivamente, em um país tão diversificado e polarizado como o Brasil, foi o instantâneo e imenso grau de adesão a essa causa nobre, humanitária e justa. O Brasil unido pede justiça, independente de partidos políticos, direita X esquerda, e outras polarizações tão comuns na nossa rotina.
Mas o que me surpreende ainda mais é o nível de apatia nacional frente a outras perturbadoras questões éticas:
· É certo ou errado roubar cerca de R$ 6 bilhões de um fundo de pensão de idosos e deficientes?
· É certo ou errado que a justiça tenha liberado 9.000 traficantes por habeas corpus em 2024?
· É certo ou errado que 26% da população brasileira vive sob regras de facções criminosas, conforme noticiado no GLOBO?
· É certo ou errado que uma empresa pública como os Correios tenha um rombo de R$ 10 bilhões?
· É certo ou errado que o escândalo do Banco Master, envolvendo supostas fraudes de mais de R$ 12 bilhões, já tenha chegado ao Supremo Tribunal Federal e ao Tribunal de Contas da União no meio das investigações?
Lembro aqui a frase do Papa Francisco: "A corrupção é paga pelos pobres." Vejam bem: não estou me posicionando sobre o mérito de cada uma dessas questões. O mérito será julgado pelas autoridades competentes, de acordo com o estado democrático de direito e a queda de braço jurídico-política na qual vivemos. Mas são perguntas importantes: elas não deveriam ao menos levantar um imenso interesse por parte daqueles que se preocupam com o país, independente de partidos políticos, direita X esquerda, etc?
Por alguma razão, não funciona assim. Ainda estou tentando entender o mistério. Vejo com esperança a recente caminhada de 255 km do jovem deputado federal Nikolas Ferreira rumo a Brasília sob o lema “O Brasil Acordou”. Vejo que houve muitas adesões, mas, mesmo assim, tenho dúvidas: até que ponto estão todos realmente acordados? Platão disse: "o preço da apatia em relação aos assuntos públicos é ser governado por homens maus."
Em um país realmente sério, qualquer um dos escândalos citados acima teria revoltado a sociedade como um todo, mas por que isso ainda não acontece no Brasil? Não tenho uma resposta definitiva. Como todas as questões complexas, vejo alguns possíveis elementos que ajudariam a explicar a anestesia nacional.
1) O hábito – os brasileiros parecem estar acostumados há muito tempo com escândalos de corrupção e tendem a ignorar sua importância.
2) A esperteza – Muitos brasileiros querem se sentir “espertos”. É mais esperto e cômodo dizer que “tudo vai acabar em pizza” do que acompanhar investigações e se indignar com injustiças.
3) O interesse – escolhas políticas podem refletir interesses e não a pureza ideológica de quem escolhe. Beneficiários de corrupção raramente vêem algo errado.
4) O medo – perguntei a algumas fontes de IA: há censura no Brasil? A resposta indica um debate cauteloso. “Embora a constituição de 1988 garanta a liberdade de expressão e proíba a censura prévia, especialistas e opositores apontam casos recentes de censura judicial e inquéritos sigilosos como formas de restrição à liberdade, especialmente no ambiente digital”.
5) O lado emocional - a maioria dos brasileiros, 53%, não leu nenhum livro no período de 3 meses investigado pela pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2024). O país perdeu quase 7 milhões de leitores em quatro anos. Cerca de 29% dos brasileiros (quase 3 em cada 10) com mais de 15 anos são analfabetos funcionais - não possuem pleno domínio da leitura, escrita e matemática. Ou seja, a perturbadora imagem de um inocente cachorro torturado por jovens sádicos tem um apelo emocional imediato que mobiliza o lado bondoso da maioria dos brasileiros.
Espero que as investigações sobre a morte trágica de Orelha revelem e punam exemplarmente os culpados. Espero ainda que o mesmo aconteça com todos os outros escândalos sendo investigados. Se todos os brasileiros aprenderem a se indignar, ficará tudo muito mais fácil.
Concluo com o alerta de Elie Wiesel, sobrevivente do Holocausto e ganhador do Prêmio Nobel da Paz: "O oposto do amor não é o ódio, é a indiferença. A indiferença, portanto, não é apenas um pecado, é um castigo."
Jonas Rabinovitch. Arquiteto urbanista com 30 anos de experiência como Conselheiro Sênior para Inovação e Gestão Pública da ONU em Nova York.
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