A morte lenta de um líder e o silêncio de uma nação

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O Brasil assiste, estarrecido, à morte lenta — física, moral e simbólica — do ex-presidente Jair Bolsonaro. Não se trata apenas de um homem, mas de um método. Um roteiro antigo na história política: primeiro enfraquece-se o corpo, depois silencia-se a voz, em seguida destrói-se a reputação e, por fim, elimina-se o significado político que o indivíduo representa.

Com histórico militar, Bolsonaro surgiu como um outsider em pleno vigor físico. Praticava exercícios típicos da caserna, fazia flexões em público, saltava de paraquedas, andava de moto, barco e jet ski. Para milhões de brasileiros, simbolizava uma ruptura com o sistema político tradicional. Em 2018, sofreu um atentado a faca cometido por um militante ligado à esquerda radical, cujo mandante jamais foi esclarecido — episódio até hoje relativizado por setores ideológicos.

Mesmo após a facada, foi eleito presidente da República. Ainda assim, jamais foi aceito pelo sistema político, institucional e midiático. A partir daí, iniciou-se uma perseguição contínua. Sua saúde nunca foi plenamente recuperada. Foram nove cirurgias, internações recorrentes e um histórico médico grave. Nem mesmo o leito de UTI foi respeitado. Bolsonaro chegou a ser intimado dentro de um hospital, em uma encenação repulsiva: enviou-se deliberadamente uma oficial mulher para notificá-lo, numa tentativa evidente de provocar reação e, caso houvesse qualquer resposta mais ríspida, acusá-lo de agressão contra a mulher, ampliando manchetes e narrativas. Nada foi improvisado.

Encerrado o mandato, a ofensiva avançou para o campo jurídico. Após sucessivas tentativas de criminalização, Bolsonaro foi condenado a 27 anos de prisão por acusações que desafiam a lógica. Fala-se em golpe de Estado armado, supostamente coordenado à distância, enquanto o acusado se encontrava fora do país. Reuniões realizadas dentro da agenda oficial com autoridades estrangeiras, prática comum a qualquer chefe de Estado, foram tratadas como crime. A lei foi torcida, o devido processo relativizado.

A prisão não ocorreu de forma abrupta. Foi gradual. Primeiro, a censura: a voz calada, o discurso limitado, as redes sociais controladas. Depois, a tornozeleira eletrônica. Em seguida, a prisão na Polícia Federal. Posteriormente, a transferência para a chamada Papudinha. Agora, cogita-se retirar-lhe a patente militar — o que equivale a declará-lo morto para o Exército — para então levá-lo à prisão comum, em um país dominado por facções criminosas. O desfecho final se anuncia de forma silenciosa, porém previsível.

Enquanto isso, cidadãos comuns que resgataram o patriotismo e passaram a atuar movidos pelo amor à pátria seguem privados de liberdade e utilizados como exemplos. Homens e mulheres que acreditaram estar contribuindo para um Brasil melhor, defendendo transparência eleitoral, justiça e um futuro mais digno para seus filhos. Já são oito mortos sob custódia do Estado. O tema praticamente desapareceu do noticiário. Vidas descartáveis.

Que país é este que naturaliza a exceção? Um país que inventa crimes, relativiza garantias constitucionais e transforma divergência política em caso de polícia. Onde estão os representantes do povo? Onde estão os freios institucionais? Até quando a sociedade aceitará esse processo de desumanização? Até quando a morte de um animal causará mais comoção do que a de seres humanos?

Em ano eleitoral, a corrupção volta a ocupar o noticiário envolvendo figuras centrais do sistema. Escândalos se acumulam e são arquivados sem constrangimento. A impunidade se impõe enquanto o país afunda em déficits trilionários. A pobreza é administrada como projeto político. O crime organizado se fortalece, desde que funcional à manutenção do poder.

O futuro se anuncia sem disfarces. Consolida-se mais uma tomada de poder, acompanhada da ampliação da Suprema Corte para garantir maiorias permanentes e decisões convenientes. Não se trata de conjectura, mas de método.

Não é preciso ser cientista político para prever o que está por vir. O roteiro é conhecido. O desfecho também.

Opositor morto, vitória do sistema.

Foto de Bernadete Freire Campos

Bernadete Freire Campos

Cidadã brasileira, especialista em neurociência, estudiosa do comportamento humano no contexto político.