Tragédia familiar expõe crise emocional e cultura da vingança

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O caso do homem que matou os dois filhos e depois tirou a própria vida, supostamente por não suportar uma traição, transformou o país em um grande tribunal informal. Nas redes sociais, opiniões se multiplicam. Cada um julga segundo suas próprias crenças e experiências.

Do ponto de vista jurídico, não há dúvida: trata-se de crime hediondo. Se estivesse vivo, o autor responderia com pena severa. A lei é clara na proteção da vida, especialmente de crianças.

Sob o olhar psicológico, porém, o episódio é mais complexo. Crimes dessa natureza não surgem de um único fato isolado. A traição pode funcionar como gatilho — nunca como causa suficiente. É preciso considerar a história de vida do agressor, sua estrutura psíquica, possíveis transtornos de personalidade, imaturidade emocional e a dinâmica relacional do casal.

Em casos assim, observam-se fragilidades importantes: baixa tolerância à frustração, dependência afetiva extrema, sentimento intenso de humilhação e dificuldade de lidar com rejeição. Quando a identidade está baseada em controle e exclusividade, a ruptura amorosa pode ser vivida como aniquilação pessoal.

Há também um componente cultural relevante. Em contextos ainda marcados por traços de machismo estrutural, a traição feminina pode ser percebida como ataque à honra masculina. Essa visão distorcida reforça a ideia de posse sobre a mulher e os filhos. Em situações de desorganização emocional, a violência surge como tentativa de recuperar poder ou punir o outro.

Outro dado alarmante é a reação social. Muitas pessoas ainda insinuam que a mulher teria “provocado” o desfecho. Essa transferência de culpa revela a dificuldade coletiva de reconhecer que a responsabilidade por um crime é exclusivamente de quem o comete. Nenhuma traição justifica homicídio.

O mais inquietante é perceber como frases de vingança são naturalizadas no cotidiano: “se fosse comigo”, “ninguém ficaria vivo”, “mexeu com minha honra paga caro”. Esse discurso revela uma cultura que ainda legitima a violência como resposta à dor.

Tragédias como essa escancaram uma crise mais profunda: a incapacidade de lidar com frustrações e perdas sem recorrer à destruição. Falta maturidade emocional, falta elaboração da dor, falta estrutura interna para suportar o sofrimento.

No fundo, o que se revela é uma incapacidade de amar. Confunde-se amor com posse, vínculo com propriedade. E posse não é amor — é adoecimento.

Essa incapacidade começa no indivíduo, na dificuldade de lidar com limites e perdas, mas se amplia no coletivo, alimentada pela validação constante das redes sociais, que hoje funcionam como formadoras de opinião mais poderosas do que qualquer outro meio. Quando discursos de ódio recebem aplauso, o problema deixa de ser apenas pessoal e passa a ser social.

Se não enfrentarmos essa raiz, continuaremos julgando tragédias depois que elas acontecem, em vez de preveni-las.

Bernadete Freire Campos

Cidadã brasileira, especialista em neurociência, estudiosa do comportamento humano no contexto político.

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