Imagine o cenário da Segunda Guerra Mundial: destruição, morte e sofrimento por todos os lados. Milhares eram assassinados nas câmaras de gás, enquanto outros sucumbiam lentamente à fome e às doenças. O cotidiano estava impregnado de dor, medo e desesperança, em um tempo em que a vida humana parecia não ter valor.
Foi nesse contexto que nasceu George Legmann, o primeiro dos sete bebês que vieram ao mundo em 1944, dentro do campo de concentração de Dachau, na Alemanha.
Os pais de Legmann eram da Transilvânia, região disputada entre Hungria e Romênia. Durante a guerra, a Hungria se alinhou ao Eixo liderado por Hitler e recebeu como recompensa a Transilvânia do Norte, antes pertencente à Romênia. Essa anexação trouxe consequências trágicas: a comunidade judaica foi submetida às políticas antissemitas e deportada para campos de concentração.
Na capital da região — Cluj-Napoca em romeno, Kolosvár em húngaro e Klausenburg em alemão — os judeus foram reunidos em uma antiga fábrica de tijolos, escolhida por sua proximidade com a linha férrea. Dali, em vagões de carga destinados originalmente ao transporte de gado, seguiram para Auschwitz-Birkenau, o maior complexo de extermínio nazista. Entre eles estavam familiares de Legmann: seu tio materno, avô e avó. O tio, de apenas 16 anos, debilitado por uma infecção no pé, foi enviado diretamente às câmaras de gás, assim como o avô.
DACHAU E OS SETE PARTOS
O campo de Dachau chegou a ter cerca de 154 subcampos, onde os prisioneiros eram rigidamente controlados. Em um desses locais, um médico encontrou sete mulheres grávidas. Ao pedir instruções a Auschwitz, recebeu como resposta que poderia “fazer o que desejasse”, já que as tropas soviéticas se aproximavam e os nazistas tentavam ocultar seus crimes.
Em dezembro de 1944 nasceu George Legmann. Poucos meses depois, em abril de 1945, Dachau foi libertado pelas forças aliadas. O médico que havia encontrado as mulheres grávidas permitiu que elas sobrevivessem e deu cinquenta latas de leite condensado para alimentar os recém-nascidos. Esse gesto pesou em seu julgamento: em vez da pena de morte, recebeu uma sentença de oito a dez anos de prisão.
Entre os prisioneiros no campo de concentração estava o ginecologista judeu húngaro Dr. Kovács, que ajudou todas as mães nos partos. A mãe de Legmann, após dar à luz, auxiliou o médico nos demais nascimentos.
O bebê Leslie quase não sobreviveu: sua mãe contraiu tifo e a placenta não se desprendia. Em uma intervenção decisiva, o médico conseguiu salvar sua vida. Miriam, sua mãe, demonstrou enorme resistência e coragem, tornando-se a última entre aquelas mulheres a falecer.
O RECOMEÇO NO BRASIL
Após escapar do Holocausto, um tio de Legmann deixou a Romênia e, passando pela Bulgária e Alemanha, encontrou em um jornal o anúncio de uma fábrica de chocolates em São Paulo que buscava um mestre chocolateiro. Com experiência adquirida na antiga fábrica de seu pai, candidatou-se e foi convidado a trabalhar no Brasil. Em 1960, graças a um acordo diplomático firmado pelo chanceler Santiago Dantas, cinquenta famílias romenas puderam emigrar legalmente para o país — entre elas, a de Legmann. Assim, chegaram a São Paulo e começaram literalmente do zero, mas com a chance de reconstruir a vida em segurança.
A MEMÓRIA PRESERVADA
Essa história será apresentada pela primeira vez em uma exposição mundial, no Senado Federal em Brasília, no dia 3 de março. Depois seguirá para o Memorial do Holocausto em São Paulo, em 13 de abril, e em julho estará no Catavento Cultural, que recebe até 90 mil visitantes por mês. Há também parceria em andamento com a Fiesp, alcançando cerca de 140 escolas do SESI em São Paulo.
Crédito: Alex Solnik
Imagem: Arquivo pessoal George Legmann
A Record fez uma reportagem sobre essa história:
Silas Anastácio
Fundador do Ministério Davar, desempenha papel estratégico nos bastidores da mídia evangélica. Colabora com instituições judaicas, trazendo mais de uma década de experiência no engajamento com temas relacionados a Israel e à comunidade judaica no Brasil.