Quem foi Ali Khamenei, o aiatolá que comandou o Irã por mais de três décadas

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A morte do líder supremo do Irã, confirmada por autoridades americanas e israelenses após uma ação militar conjunta, marca o fim de um dos ciclos mais longos e influentes da política do Oriente Médio contemporâneo. Mas afinal, quem era o homem que governou a República Islâmica por mais de 35 anos?

De clérigo revolucionário a chefe máximo do regime

Nascido em 1939, na cidade de Mashhad, Khamenei cresceu em uma família religiosa xiita. Ainda jovem, aproximou-se do movimento liderado por Ruhollah Khomeini, que culminaria na Revolução Islâmica de 1979 e na queda do xá Mohammad Reza Pahlavi.

Após a revolução, Khamenei ocupou cargos estratégicos dentro do novo regime. Foi presidente do Irã entre 1981 e 1989, período marcado pela guerra contra o Iraque e pela consolidação do modelo teocrático. Com a morte de Khomeini, foi escolhido pela Assembleia dos Peritos como novo líder supremo — o posto mais poderoso do país.

O que significa ser líder supremo

Diferentemente do presidente iraniano, o líder supremo não é apenas chefe de Estado simbólico. Ele detém controle direto sobre as Forças Armadas, a Guarda Revolucionária, o Judiciário, os serviços de inteligência e influencia decisivamente o Parlamento.

Na prática, nenhuma decisão estratégica relevante no Irã é tomada sem o aval do líder supremo. Ao longo de sua liderança, Khamenei concentrou poder e ampliou a influência da Guarda Revolucionária na economia e na política interna.

Política externa e confronto com o Ocidente

Khamenei sempre manteve uma postura de confronto ideológico com os Estados Unidos e Israel. Sob sua liderança, o Irã apoiou grupos aliados no Líbano, Síria, Iraque e Gaza, consolidando um eixo de influência regional.

O programa nuclear iraniano também avançou nesse período, tornando-se ponto central de tensão internacional. Sanções econômicas severas foram impostas ao país ao longo dos anos, mas o regime manteve sua linha estratégica.

Repressão interna e desafios domésticos

Internamente, seu governo foi marcado por repressão a protestos populares, controle rígido da imprensa e restrições severas a liberdades civis. Movimentos de contestação, especialmente liderados por jovens e mulheres, foram enfrentados com forte aparato de segurança.

Ainda assim, o regime sobreviveu a sucessivas ondas de instabilidade, sustentado por uma estrutura político-religiosa consolidada.

Um vácuo de poder e incertezas

A morte de Khamenei abre uma nova fase para o Irã. A sucessão no cargo de líder supremo é um processo complexo e sensível, conduzido pela Assembleia dos Peritos. A escolha do próximo nome poderá redefinir os rumos internos e externos da República Islâmica.

O Oriente Médio observa com atenção. A saída de cena de uma figura que dominou o cenário iraniano por décadas pode alterar o equilíbrio de forças na região.

Independentemente das disputas geopolíticas, encerra-se um capítulo central da história contemporânea do Irã — e começa outro, ainda imprevisível.

Foto de Emílio Kerber Filho

Emílio Kerber Filho

Escritor e Estrategista Político. Autor do livro: 20 Dias para a Vitória: Os bastidores de uma campanha surpreendente e as estratégias que levaram à vitória eleitoral