Quem foi Ali Khamenei, o aiatolá que comandou o Irã por mais de três décadas
01/03/2026 às 05:40 Opinião
A morte do líder supremo do Irã, confirmada por autoridades americanas e israelenses após uma ação militar conjunta, marca o fim de um dos ciclos mais longos e influentes da política do Oriente Médio contemporâneo. Mas afinal, quem era o homem que governou a República Islâmica por mais de 35 anos?
De clérigo revolucionário a chefe máximo do regime
Nascido em 1939, na cidade de Mashhad, Khamenei cresceu em uma família religiosa xiita. Ainda jovem, aproximou-se do movimento liderado por Ruhollah Khomeini, que culminaria na Revolução Islâmica de 1979 e na queda do xá Mohammad Reza Pahlavi.
Após a revolução, Khamenei ocupou cargos estratégicos dentro do novo regime. Foi presidente do Irã entre 1981 e 1989, período marcado pela guerra contra o Iraque e pela consolidação do modelo teocrático. Com a morte de Khomeini, foi escolhido pela Assembleia dos Peritos como novo líder supremo — o posto mais poderoso do país.
O que significa ser líder supremo
Diferentemente do presidente iraniano, o líder supremo não é apenas chefe de Estado simbólico. Ele detém controle direto sobre as Forças Armadas, a Guarda Revolucionária, o Judiciário, os serviços de inteligência e influencia decisivamente o Parlamento.
Na prática, nenhuma decisão estratégica relevante no Irã é tomada sem o aval do líder supremo. Ao longo de sua liderança, Khamenei concentrou poder e ampliou a influência da Guarda Revolucionária na economia e na política interna.
Política externa e confronto com o Ocidente
Khamenei sempre manteve uma postura de confronto ideológico com os Estados Unidos e Israel. Sob sua liderança, o Irã apoiou grupos aliados no Líbano, Síria, Iraque e Gaza, consolidando um eixo de influência regional.
O programa nuclear iraniano também avançou nesse período, tornando-se ponto central de tensão internacional. Sanções econômicas severas foram impostas ao país ao longo dos anos, mas o regime manteve sua linha estratégica.
Repressão interna e desafios domésticos
Internamente, seu governo foi marcado por repressão a protestos populares, controle rígido da imprensa e restrições severas a liberdades civis. Movimentos de contestação, especialmente liderados por jovens e mulheres, foram enfrentados com forte aparato de segurança.
Ainda assim, o regime sobreviveu a sucessivas ondas de instabilidade, sustentado por uma estrutura político-religiosa consolidada.
Um vácuo de poder e incertezas
A morte de Khamenei abre uma nova fase para o Irã. A sucessão no cargo de líder supremo é um processo complexo e sensível, conduzido pela Assembleia dos Peritos. A escolha do próximo nome poderá redefinir os rumos internos e externos da República Islâmica.
O Oriente Médio observa com atenção. A saída de cena de uma figura que dominou o cenário iraniano por décadas pode alterar o equilíbrio de forças na região.
Independentemente das disputas geopolíticas, encerra-se um capítulo central da história contemporânea do Irã — e começa outro, ainda imprevisível.
Emílio Kerber Filho
Escritor e Estrategista Político. Autor do livro: 20 Dias para a Vitória: Os bastidores de uma campanha surpreendente e as estratégias que levaram à vitória eleitoral