Matheus Dal'Pizzol

Palpites sobre o oblívio das virtudes

Vestir-se mal é coisa de gente rica e abastada

É claro que o título deste artigo é uma extrapolação absurda. Mas, se você está lendo estas “mal traçadas linhas” - para lembrar o saudoso Adoniran Barbosa -, ele cumpriu o seu papel. Agora, se você espera uma análise de moda, gostos ou qualquer coisa parecida, ficará desapontado. Este artigo trata de alguns aspectos culturais bem difundidos nas últimas décadas, principalmente entre os mais jovens.

É claro que boas condições financeiras possibilitam melhores escolhas de vestimentas, tecidos de maior qualidade e acessórios que, quando bem escolhidos, transbordam elegância e sofisticação. Mas o que dizer quando pessoas “bem de vida” deliberadamente optam por aparecer em público vestidas como maltrapilhos? Como disse, a questão do gosto não está em jogo aqui.

O fenômeno sempre me chamou atenção. A partir de uma determinada idade e principalmente após terem formado suas preferências políticas - de esquerda, na maioria dos casos -, algumas das pessoas mais abastadas que conheci na vida passaram a vestir-se com roupas de grife que em nada diferem de trapos. A justificativa era sempre a mesma: “Quero uma vida simples, sem esbanjamento. É preciso ser solidário com os mais pobres e nos identificarmos com eles”. É claro que apesar da vida simples, as viagens espirituais para a Guatemala pagas com o Mastercard dos pais e as calças esfarrapadas de grife a R$ 800,00 não desapareciam em meio a tanta humildade do pensamento.

Em suma, a prática sempre me pareceu ligada a pessoas que nunca tiveram que trabalhar duro na vida, que nunca perceberam a fragilidade de um patrimônio e o esforço exigido para que este seja obtido e mantido, acabando por se tornarem mais alguns defensores do socialismo e do igualitarismo. Quem não sabe o que é preciso para construir o seu pequeno “império pessoal”, não vê problema algum em exigir que o Estado o exproprie e o “redistribua” em nome da igualdade.

Além disso, a visão juvenil dessas pessoas de que uma casa bem arrumada e roupas bem passadas não passam de um materialismo burguês sem sentido sempre me nauseou. Mas ninguém foi capaz de desmascarar essa visão mesquinha melhor do que médico britânico Anthony Daniels, popularmente conhecido pelo seu pseudônimo “Theodore Dalrymple”. Em seu livro “Nossa cultura… ou o que restou dela”, publicado no Brasil pela editora É Realizações, Dalrymple relata seus ressentimentos da adolescência e sua adesão às ideias “progressistas” do pós-guerra que pregavam tal tipo de “besteirol” - para utilizar o mesmo termo que o autor. Porém, ele trata de relatar também o que o levou a rejeitar esse tipo de visão, convertendo-o com o tempo em um dos autores conservadores de maior influência da atualidade. A passagem em questão é de um nível de escrita que de maneira alguma posso esperar me aproximar. Por isso, a transcrevo e me retiro, deixando a reflexão entre o autor e o leitor.

“Foi na África que descobri, pela primeira vez, que as virtudes burguesas não são apenas desejáveis, mas frequentemente heróicas. Estava trabalhando num hospital em um lugar que ainda era chamado de Rodésia, atual Zimbábue. Eu partilhava da imatura e fundamentalmente preguiçosa opinião juvenil de que nada mudaria no mundo até que tudo fosse mudado, e então teríamos o surgimento de um sistema social no qual não haveria mais a necessidade de ninguém ser bom.

A enfermeira chefe do lugar em que eu trabalhava, uma mulher negra, um dia me convidou para uma refeição em sua casa na cidade. Naquela época e naquele lugar, o contato social entre brancos e negros era incomum, embora não fosse considerado ilegal. Ela era uma mulher esplêndida, gentil e batalhadora. Vivia num município no qual havia milhares de idênticos e minúsculos bangalôs pré-fabricados, do tamanho de choupanas. O nível de violência naquele lugar era altíssimo: no sábado à noite o piso do setor de emergência do hospital ficava escorregadio de tanto sangue que escorria.

Em meio àquele ambiente absolutamente desolador, descobri que aquela enfermeira criara um lar extremamente confortável e até mesmo bonito para ela e sua idosa mãe. A minúscula faixa de terra que dispunha parecia um caramanchão; o interior de sua casa era limpo, arrumado e bem mobiliado, embora de forma modesta. Nunca mais eu riria do bom gosto de pessoas com poucos recursos para a criação de um lar confortável.

Observando a realidade que circundava aquele município, comecei a reparar que o uniforme branco, imaculadamente branco, com o qual ela se apresentava todos os dias no hospital não representava um fetiche absurdo, tampouco a imposição brutal de padrões culturais estrangeiros sobre a vida africana, mas um nobre triunfo do espírito humano - como, de fato, acontecia com sua moradia cuidada com tanto apreço. Ao comparar o esforço daquela mulher em manter-se dignamente, minha antiga rejeição aos valores burgueses da respeitabilidade me pareceu, desde então, uma atitude rasa, trivial e imatura. Até então, eu supunha, juntamente com grande parte de minha geração já desacostumada com as durezas da vida real, que uma aparência desmazelada  seria um sinal de elevação espiritual  e representava uma rejeição à superficialidade e ao materialismo da vida burguesa. Todavia, desde então não fui mais capaz de observar a adoção voluntária de roupas esfarrapadas, desgrenhadas e amassadas - ao menos em público - por aqueles com condição de se vestir de outra forma, sem sentir profunda aversão. Longe de representar um sinal de solidariedade com os pobres, descobri que esse comportamento exibe uma perversa paródia deles; age cuspindo no túmulo de nossos ancestrais, que trabalharam tão duro, por tanto tempo e de forma tão custosa para que pudéssemos ficar agasalhados, limpos, alimentados e devidamente cuidados, para então desfrutarmos das melhores coisas da vida.”

Matheus Dal'Pizzol

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