Atuação de Sicário vem à tona e revela um verdadeiro “homem bomba” pronto para "explodir"
10/03/2026 às 13:09 Direito e Justiça
Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, recebeu arquivos confidenciais de três procedimentos que tramitavam sob sigilo no Ministério Público Federal. O acesso ocorreu em julho de 2025. A Justiça Federal de Brasília determinou a prisão do empresário quatro meses depois, em novembro do mesmo ano.
Mensagens mostram que Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, identificado como "Sicário", enviou os arquivos a Vorcaro no dia 24 de julho de 2025. As transmissões aconteceram entre 16h28 e 16h31. O material foi localizado no celular apreendido pela Polícia Federal após a primeira detenção de Vorcaro. O banqueiro tentava embarcar para Dubai, com escala em Malta.
Entre os documentos estava a apuração sobre irregularidades na aquisição do Master pelo BRB. Essa investigação motivaria a detenção do empresário meses depois. Os outros dois procedimentos abordavam a transação entre o Master e o BRB, operação que a Justiça Federal de Brasília caracterizou como "pura camaradagem". O terceiro examinava suspeitas sobre um triplex de luxo em São Paulo, avaliado em R$ 60 milhões, que teria sido usado como propina na negociação com o banco estatal.
Investigadores identificaram que Vorcaro e seus comparsas executavam buscas por termos específicos em procedimentos sigilosos. As palavras procuradas eram "Banco Master", "Vorcaro" e "Nelson Tanure", apontado pela PF como sócio oculto do banco. A tática permitia ao grupo localizar investigações que envolvessem seus interesses antes que as autoridades tomassem providências.
A apuração sobre o imóvel de luxo encontrava-se em fase inicial de coleta de informações. O procedimento permaneceu nesse estágio até dezembro do ano passado. O ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli ordenou o envio ao tribunal de todas as investigações conexas.
Em julho de 2025, o Banco Central já havia detectado dificuldades do Master em captar recursos e honrar compromissos. A autoridade monetária alertava sobre o risco de adoção de "medidas prudenciais preventivas". A transação com o BRB era fundamental para a sobrevivência do banco de Vorcaro.
Três meses antes, em abril de 2025, o Banco Master foi notificado pelo Banco Central. A notificação informava que as ações implementadas até aquela época não tinham sido suficientes para mitigar o risco de liquidez do conglomerado. A situação financeira da instituição se deteriorava progressivamente.
Ao longo do primeiro semestre de 2025, o Banco Central identificou "graves irregularidades nas carteiras de crédito cedidas pelo Banco Master ao BRB". As irregularidades envolviam a utilização de artifícios contábeis "com o propósito de ocultar a real situação financeira do cedente, caracterizada por um grande volume de operações suspeitas e desprovidas de comprovação financeira, realizadas em desrespeito às normas de boa gestão". A informação consta de uma auditoria do Tribunal de Contas da União.
As investigações revelaram que Vorcaro teve acesso não apenas ao sistema do MPF. O banqueiro também obteve informações da própria Polícia Federal e de organismos internacionais como o FBI e a Interpol. A amplitude do acesso indevido demonstra a sofisticação da operação montada pelo grupo.
A PF investiga se houve vazamento da ordem de prisão de Vorcaro. A suspeita se baseia em um pedido da defesa feito no mesmo dia em que foi assinada a determinação do juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília. A hipótese foi reforçada após vir à tona o acesso indevido de Sicário aos sistemas internos da PF e do MPF.
A defesa de Vorcaro protocolou um pedido na Justiça Federal de Brasília no dia 17 de novembro às 15h47. O juiz Ricardo Leite havia assinado a ordem de prisão às 15h29. Os advogados se posicionaram "contra medidas cautelares eventualmente requeridas", que poderiam provocar "impacto relevante" e causar "prejuízo irreversível a todo o conglomerado Master". O intervalo entre a assinatura da ordem e o protocolo da petição foi de 18 minutos.
Na petição, a defesa menciona uma nota publicada no site O Bastidor às 11h08 sobre um inquérito na 10ª Vara Federal de Brasília. A publicação tratava de fraude bilionária envolvendo a compra do Master pelo BRB. A nota não mencionava risco de prisão. A ordem deveria ser cumprida na manhã do dia 18 de novembro. A execução aconteceu no mesmo dia da decisão.
A PF suspeitava que Vorcaro fugisse do país. Segundo a apuração policial, o banqueiro obteve informação sobre o inquérito sigiloso mediante acesso ilegal aos sistemas da corporação. Posteriormente, teria usado o site para tornar a informação pública. Esse processo foi descrito como "esquentando" os dados. A estratégia permitiria apresentar a petição ao juiz Ricardo Leite.
O ministro André Mendonça, novo relator do caso, autorizou a terceira fase da operação Compliance Zero. A operação resultou na prisão de Vorcaro. Na decisão, o magistrado apontou registros indicando que Daniel Vorcaro teve acesso prévio a "informações relacionadas à realização de diligências investigativas, tendo realizado anotações e comunicações relativas a autoridades e procedimentos associados às investigações em andamento".
O ministro destacou que Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão realizava consultas e extrações de dados em sistemas restritos de órgãos públicos. As investigações apontam que os acessos incluíam bases de dados utilizadas por instituições de segurança pública e investigação policial.
Mendonça observou que tais acessos "teriam ocorrido mediante utilização de credenciais funcionais pertencentes a terceiros, permitindo a obtenção de informações protegidas por sigilo institucional". O ministro afirmou que, de acordo com a autoridade policial, o investigado teria obtido acesso indevido aos sistemas da própria Polícia Federal, do Ministério Público Federal e até mesmo de organismos internacionais, tais como FBI e Interpol.
Sicário possuía extensa ficha criminal na polícia de Minas Gerais. Foi indiciado por estelionato, furto de veículos, crime cibernético e associação criminosa. Com histórico de fraudes digitais, ele recebia R$ 1 milhão por mês de Vorcaro. Sicário morreu após tentar cometer suicídio na superintendência da PF em Minas Gerais.
Vorcaro e seus comparsas adotaram uma campanha de spearfishing direcionada a servidores do MPF previamente mapeados pelo grupo. O método utiliza telas falsas de troca de senhas enviadas por e-mail aos servidores alvos do golpe. A principal característica desse esquema é o cuidado para tornar a fraude convincente. O objetivo é evitar que a vítima perceba o engano.
Fontes familiarizadas com as invasões ordenadas por Vorcaro informaram que Sicário elaborou um ambiente digital para troca de senha. O ambiente tinha aparência idêntica ao servidor usado pelos funcionários da Procuradoria-Geral da República. Os alvos, com endereços eletrônicos conhecidos, receberam mensagens falsas alertando sobre necessidade de troca de senha. O golpe funcionou. O grupo obteve acesso a dois procedimentos sigilosos que corriam na primeira instância sobre o caso Master.
A defesa do banqueiro Daniel Vorcaro foi procurada para se manifestar sobre as informações que revelam o acesso indevido a procedimentos sigilosos do Ministério Público Federal. Os advogados optaram por não comentar os fatos. Alegaram que os conteúdos decorrem de vazamentos ilegais de material protegido por sigilo judicial.
Os defensores argumentaram que os fatos já são objeto de investigação criminal determinada pelo ministro André Mendonça no Supremo Tribunal Federal. Segundo a defesa, qualquer manifestação sobre informações obtidas dessa forma apenas reforçaria a disseminação de conteúdos cuja divulgação é, em si, objeto de apuração pelas autoridades competentes.
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da Redação