Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

Quando Corumbá foi Paraguai (1a parte)

Por ocasião da invasão paraguaia na província de Mato Grosso, pensava-se que o Forte de Coimbra fosse um obstáculo instransponível a qualquer penetração hostil em território brasileiro. A sua construção (1775), por ordem de Luiz de Albuquerque, tinha por objetivo ser um anteparo às pretensões dos espanhóis na região. Em 1801, o velho forte cumpriu o seu papel histórico quando, sob o comando do coronel Ricardo Franco, impediu o avanço das tropas espanholas comandadas pelo general Lázaro de Ribera.

Nos últimos dias de 1864, com o início do conflito entre o Paraguai e a Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai), o forte foi novamente atacado pelas forças paraguaias. Mesmo em situação desigual, já que os paraguaios estavam em número extraordinariamente superior, o seu comandante, tenente-coronel Hermenegildo Portocarrero, resistiu por dois dias com uma guarnição reduzida. Num dos momentos mais violentos do confronto, segundo o historiador Raul Silveira de Mello, apareceu nas muralhas o músico Verdeixas com a imagem de Na. Sa. do Carmo, padroeira do forte, erguida nas mãos. Após este gesto, passou a imagem da santa às mãos da mulher do comandante. Segundo uma versão desta história, o combate foi interrompido com vários “Viva Na. Sa. do Carmo” e respondidos com “Viva Nuestra Señora del Carmen” pelos paraguaios.

Impossibilitado, porém, de continuar a resistência, Portocarrero (com seus soldados e civis ali residentes), retirou-se para Corumbá e, logo após, partiu por ordens superiores para Cuiabá.

Porém, existe uma pergunta até hoje pouco esclarecida nesse episódio. Como foi possível a realização dessa retirada noturna sem ruídos da movimentação de pessoas e do vapor Amambaí e, ao mesmo tempo, sem provocar uma reação dos paraguaios? O fato de Portocarrero ter sido instrutor do comandante paraguaio Vicente Barrios, quando havia participado de uma Comissão Militar em Assunção, teria sido o fator decisivo que possibilitou a fuga, graças ao respeito pessoal e mútuo.

Nessa ocasião, o pânico instalou-se na pequena vila de Corumbá. Os primeiros a fugir foram os militares deixando a população civil à mercê dos invasores. A 3 de janeiro de 1865 a vila foi abandonada pelo comandante, coronel Carlos Augusto de Oliveira e pelo comandante tenente-coronel Carlos de Moraes Camisão junto do 2o Batalhão de Artilharia. Mais tarde, Camisão redimiu-se deste ato pusilânime perante a história ao participar de um dos feitos heroicos mais significativos da guerra: a ação da coluna que penetrou em território paraguaio, imortalizada por Taunay no livro “A Retirada da Laguna”.

Segundo Manoel Cavassa, em seu “Memorandum”, escrito em 1894, começou então uma confusão e barulho com soldados bêbados e civis acovardados e que já não respeitavam os seus oficiais. Ao mesmo tempo, conforme Cavassa, furiosos com a situação, os habitantes locais queriam eliminar os estrangeiros moradores da vila, caluniando-os, dizendo que sabiam da invasão, motivando alguns destes a abandonar suas casas e a refugiar-se no mato.

A desconfiança relatada por Manoel Cavassa vinha do fato do coronel paraguaio Isidoro Resquin, disfarçado de fazendeiro e comprador de terras, ter sido recebido em Corumbá por comerciantes italianos ali estabelecidos. Nesta época em Corumbá existiu pouco mais de 70 estrangeiros, a maioria dedicada à atividade comercial. As informações colhidas por Resquin sobre toda a fronteira mato-grossense permitiram a Solano Lopez o planejamento da invasão.    

No meio de toda essa confusão, o tenente João de Oliveira Mello, quando ainda permanecia em Corumbá na retaguarda da fuga, ordenou que se destruísse a pólvora depositada em grande quantidade no quartel, ateando fogo, o que levaria aos ares toda a vila. Tal desatino somente não se concretizou pela ação de comerciantes locais que propuseram jogá-la ao rio antes da chegada dos paraguaios.

A esquadrilha paraguaia chegou a Ladário, onde parte da tropa desembarcou para dirigir-se por terra a Corumbá. Ainda relatado por Cavassa, aquele trajeto pareceu uma noite de S. João: os soldados vinham mortos de fome, indo ao fogo tudo o que encontravam: porcos, cabras, etc. e começou o saque às casas comerciais que não tinham moradores. Enquanto isso, os comerciantes Cavassa e Nicola Canale entre outros, desceram de canoa o rio em direção ao navio do comandante das forças invasoras, pedindo proteção para suas vidas, de seus familiares e seus negócios. Parece, no entanto, que as promessas de proteção não se concretizaram, e os saques continuaram com extensiva violência aos civis, em especial às mulheres.

Ao mesmo tempo aprisionaram e conduziram à Corumbá civis que subiam o rio ou que estavam escondidos nos matos ao redor da vila.

Apesar das privações, carestia de alimentos e de roupas, a população voltou a se recompor sob novas regras do governo paraguaio. Manoel Cavassa revelou ainda em seu “Memorandum” que quase todos visitavam o general paraguaio e frequentavam os bailes que os invasores promoviam aos domingos. O comércio local passava então a ser abastecido por mascates e comerciantes que circulavam pelos territórios ocupados. O abate de animais para o consumo da vila era realizado por soldados paraguaios que os vendiam aos civis.

Nesse estado de guerra, todo o modo de vida de Corumbá, sob o nome de Província do Alto Paraguai, foi controlado e regido pela vontade do comandante paraguaio, general Vicente Barrios, cunhado de Solano Lopez.

(Continua)

Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

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