O final de quem odeia também é democrático

O perigo de uma política que transforma adversários em inimigos a serem abatidos

Ler na área do assinante

Hoje assisti a uma cena perturbadora.

Diante do hospital para onde o ex-presidente Jair Bolsonaro havia sido levado após passar mal, jornalistas gravavam vídeos enquanto comentavam a situação.

Uma repórter iniciou a transmissão com uma frase inesperada:

“Ó, felicidade!”

Ao fundo, outras pessoas comemoravam a possibilidade de que o ex-presidente pudesse morrer naquele dia — uma sexta-feira 13 que, segundo uma delas, “passaria a ser um dia de sorte”.

A cena levanta uma pergunta inquietante:

Que tipo de sociedade celebra a possibilidade da morte de um adversário político?

E mais ainda:

Que tipo de mentalidade permite que o sofrimento humano seja transformado em motivo de comemoração pública?

A psicologia social oferece diversas explicações para esse tipo de comportamento. Mas deixarei essa análise para um artigo científico.

Por ora, quero apenas registrar minha perplexidade e indignação diante de um fenômeno que vem se intensificando no Brasil nos últimos anos: a progressiva desumanização do adversário político.

Desde a abertura do chamado “inquérito do fim do mundo”, instaurado no âmbito do Supremo Tribunal Federal, criou-se no país um ambiente de forte tensão institucional e política. Independentemente das posições ideológicas de cada cidadão, é inegável que a sensação de seletividade na aplicação de punições tem alimentado ressentimentos, conflitos e percepções de injustiça.

Nesse contexto, figuras públicas passam a ser tratadas não como adversários políticos, mas como inimigos morais cuja humilhação ou destruição seria desejável.

O próprio ex-presidente Bolsonaro carrega marcas físicas e políticas dessa radicalização. Antes do atentado sofrido durante a campanha eleitoral de 2018, era um capitão do Exército, atleta e um homem de boa saúde. O ataque violento mudou radicalmente essa condição. Desde então, enfrentou diversas cirurgias e passou a conviver com sequelas que o acompanham até hoje.

Agora idoso, seu estado de saúde ainda reflete as consequências daquele episódio — algo que frequentemente é ignorado por aqueles que preferem reduzir sua história a um rótulo político.

Nada disso, porém, parece comover aqueles que transformaram sua figura em símbolo absoluto do mal político.

Quando o adversário é reduzido a uma caricatura moral, perde-se algo essencial: a capacidade de reconhecer a humanidade do outro.

E é exatamente aí que reside o perigo.

O problema não está apenas nas palavras pronunciadas diante das câmeras, mas na plateia invisível que as celebra — parceiros ideológicos que reforçam e amplificam esse tipo de comportamento. Assim, a humilhação pública passa a ser tratada como virtude, e o sofrimento alheio como espetáculo.

Esse ambiente revela algo preocupante: uma sociedade emocionalmente adoecida, cada vez mais incapaz de conviver com divergências políticas sem recorrer ao desprezo e à desumanização.

Muitos dos que celebram o sofrimento de uma figura pública esquecem-se de algo simples: estão falando de um ser humano, mortal como todos nós — e de uma autoridade que continua sendo respeitada e admirada por milhões de brasileiros, muitas vezes inclusive por familiares e amigos daqueles que hoje celebram sua dor.

Há muito tempo parece que já não falamos a mesma língua.

E não, isso não é sobre democracia.

A democracia pressupõe divergência, oposição e debate. Mas também exige respeito mínimo pela dignidade humana — inclusive a do adversário.

Quando esse limite é ultrapassado, o que resta já não é política.

O que emerge é um ressentimento profundo que deságua na vingança — declarada em voz alta e aclamada em coro, sem remorso nem pudor.

E quando uma sociedade chega a esse ponto, algo essencial já se perdeu.

No fim das contas, existe apenas uma realidade verdadeiramente democrática: a morte.

Ela não é de direita, não é de esquerda, nem de centro.

Não faz acordos com partidos, tribunais ou governos.

Não escolhe ideologias nem pede licença às paixões humanas.

Talvez por isso seja prudente lembrar que o desejo cruel pode ter efeito bumerangue.

Pois o pêndulo da morte, silencioso e implacável, cedo ou tarde passa por todos.

No fim, a morte iguala aquilo que o ódio tentou separar.

Foto de Bernadete Freire Campos

Bernadete Freire Campos

Cidadã brasileira, especialista em neurociência, estudiosa do comportamento humano no contexto político.

Ler comentários e comentar