Bolsonaro e o extermínio de sua imagem: entre a Máscara de Ferro e a "Damnatio Memoriae"
16/03/2026 às 15:53 Opinião
O que fazem hoje com Jair Bolsonaro não é justiça. É um esforço deliberado para silenciá-lo, isolá-lo e, acima de tudo, apagar sua presença da vida pública brasileira.
Bolsonaro cumpre pena por um crime impossível, um crime que não cometeu e que nunca existiu. É um preso político. E como todo preso político da história, não basta prendê-lo, é preciso escondê-lo.
Ninguém pode vê-lo sem autorização de seu algoz, o ministro Alexandre de Moraes. O mundo não pode vê-lo. A família precisa pedir permissão para visitá-lo e, ainda assim, sem registrar imagens. Hoje, ao ser levado a um hospital depois de passar mal no cárcere, colocaram lençóis à frente para impedir que o público e a imprensa o vissem.
Essa cena não pertence a uma democracia saudável. Ela lembra uma história clássica da literatura e do imaginário político: a do "Homem da Máscara de Ferro", personagem eternizado por Alexandre Dumas no romance "O Visconde de Bragelonne: Dez Anos Depois".
Naquela narrativa, o prisioneiro não era apenas encarcerado. Ele era escondido do mundo. Seu rosto precisava permanecer oculto para que ninguém soubesse quem ele era e para que sua existência não produzisse efeitos políticos.
É exatamente essa lógica que se repete, não basta prender é preciso impedir que seja visto.
Mas há ainda um paralelo histórico mais profundo. Na Roma antiga existia uma punição chamada "Damnatio Memoriae", a “condenação da memória”. O Estado apagava o nome do condenado das inscrições, destruía estátuas e tentava eliminar qualquer vestígio de sua existência.
Não bastava derrotar o adversário. Era preciso fazer com que ele desaparecesse da história.
O que vemos hoje é uma versão moderna dessa prática. Tentam controlar sua imagem, limitar sua voz e restringir sua presença pública, como se fosse possível apagar da memória nacional um presidente que governou o país e mobilizou (e mobiliza) milhões de brasileiros.
A história, porém, costuma ser implacável com quem tenta manipular a memória coletiva. Personagens que o poder tentou esconder, como o prisioneiro da máscara de ferro ou as vítimas da "Damnatio Memoriae", acabaram se tornando símbolos ainda mais fortes com o passar do tempo.
Porque há uma verdade que atravessa os séculos: quanto mais o poder tenta esconder um homem, mais ele se transforma em história.
Henrique Alves da Rocha
Coronel da Polícia Militar do Estado de Sergipe.