O discurso contra a chamada “polarização”, repetido por alguns políticos brasileiros — entre eles Ratinho Junior — costuma ser apresentado como sinal de moderação, equilíbrio ou maturidade política. Mas essa narrativa parte de um erro conceitual profundo. Em uma democracia real, a existência de polos políticos claros não é um defeito. É justamente o que caracteriza a disputa democrática.
Democracia pressupõe conflito de ideias, projetos diferentes de país e a possibilidade de alternância de poder. Quando só existe um polo político dominante, não estamos diante de harmonia institucional. Estamos diante de hegemonia. E hegemonia política sem contraponto tende, cedo ou tarde, a se transformar em autoritarismo.
Basta olhar para o mundo. Onde não existe polarização política real? Em regimes como Cuba, Coreia do Norte ou Venezuela. Em Cuba, o poder permanece nas mãos do mesmo partido desde 1959. Na Coreia do Norte, o sistema político gira em torno da mesma dinastia há décadas. Na Venezuela, o chavismo construiu um sistema que sufoca a oposição e concentra o poder no aparato estatal. Em todos esses casos, o que existe é justamente a ausência de polarização — porque a disputa política foi neutralizada.
Nas democracias consolidadas acontece exatamente o contrário. Nos Estados Unidos, por exemplo, há mais de um século a política gira em torno de dois polos muito claros: o Partido Republicano dos Estados Unidos e o Partido Democrata dos Estados Unidos. Ninguém diz que isso destrói a democracia americana. Pelo contrário: é assim que ela funciona.
No Brasil, a estranheza diante da polarização tem outra explicação: durante décadas simplesmente não existiu uma oposição real à esquerda. O país conviveu com uma oposição de fachada representada sobretudo pelo Partido da Social Democracia Brasileira. Era o famoso “teatro das tesouras”: dois partidos disputando eleições, mas com diferenças cada vez menores de projeto político.
Foi somente a partir do trabalho intelectual de Olavo de Carvalho no campo das ideias e da ascensão política de Jair Bolsonaro que surgiu no país um movimento disposto a confrontar diretamente a hegemonia da esquerda. A partir daí, o Brasil passou a experimentar algo absolutamente normal nas democracias maduras: a existência de polos ideológicos claros.
É justamente nesse cenário que surge o discurso da chamada “terceira via”. Na prática, porém, muitas vezes isso se resume ao que pode ser chamado de *emendalismo*: políticos que concentram sua atuação em distribuir emendas parlamentares, usando recursos públicos para construir currais eleitorais e consolidar redes de dependência política em municípios inteiros.
Transformam uma obrigação institucional do mandato em propaganda pessoal. Aparecem entregando ambulâncias, tratores ou obras como se estivessem fazendo favores, quando na verdade estão apenas executando recursos que já pertencem à população. Pior: ao tratar a política dessa forma, acabam criando uma lógica perversa na qual apoio político passa a ser comprado com verba pública.
O emendalismo não constrói projeto de país. Ele compra consciências. Alimenta uma política de conveniência e dependência, onde prefeitos e lideranças locais passam a apoiar quem libera mais recursos — e não quem apresenta melhores ideias.
Por isso mesmo, muitos desses políticos não conseguem sequer admitir que exista apoio voluntário a um projeto político. Para eles, toda mobilização precisa ter preço, toda liderança precisa ser financiada e todo apoio precisa ser negociado.
No fundo, o discurso contra a polarização costuma ser apenas um álibi elegante. Serve para quem quer parecer equilibrado sem precisar assumir posição. Critica-se todos os lados ao mesmo tempo para não desagradar ninguém.
Mas política não é concurso de simpatia. Política exige escolha, convicção e coragem.
Quem diz ser contra a polarização, muitas vezes, está apenas tentando manter um pé em cada lado do jogo.
Elber Magno.
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