Estranhamente, Lulinha registra nova empresa na Espanha enquanto investigação sobre INSS avança contra ele
18/03/2026 às 09:30 Internacional
O empresário Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, constituiu uma empresa na Espanha após o avanço das investigações relacionadas a um suposto esquema de fraudes no INSS, no qual seu nome é citado como possível beneficiário. A companhia, denominada Synapta, teve início operacional registrado em 13 de janeiro de 2026 e foi formalmente inscrita no Registro Mercantil de Madri em 6 de fevereiro.
De acordo com apuração realizada no local, o endereço informado pela empresa situa-se no distrito de Chamartín, área nobre ao norte da capital espanhola. O imóvel corresponde a um edifício moderno que abriga diferentes tipos de organizações, incluindo empresas internacionais, consultórios e repartições administrativas.
A Synapta declara atuação em áreas amplas do setor tecnológico, como consultoria em informática, implementação de soluções digitais e suporte técnico. Além disso, menciona atividades ligadas à intermediação comercial, incluindo a identificação de oportunidades de negócios — descrição comum em empresas recém-criadas, ainda sem operação consolidada.
O registro indica Lulinha como administrador único. Até o momento, não há movimentações operacionais relevantes associadas à empresa, exceto a designação do escritório Monereo Meyer Abogados e de cinco profissionais como representantes legais. O endereço cadastral coincide com o da própria firma jurídica, especializada em assessorar empresas estrangeiras na Espanha e em Portugal.
O capital social declarado é de 3.000 euros, valor mínimo exigido pela legislação local — aproximadamente R$ 18 mil. Funcionários do prédio afirmaram desconhecer a empresa, embora tenham reconhecido a possibilidade de utilização do endereço como domicílio fiscal, prática permitida tanto na legislação espanhola quanto na brasileira.
A informação é do jornal Folha de S.Paulo.
Procurado, um dos fundadores do escritório, Stefan Meyer, demonstrou surpresa ao ser questionado sobre o caso.
"O que nós temos a ver com isso? Mande um email e investigaremos, ok?", afirmou.
Posteriormente, a assessoria da firma informou que não poderia comentar além das informações públicas, em razão do dever de confidencialidade profissional.
A defesa de Lulinha sustenta que a empresa atende a todas as exigências legais e que ainda não iniciou atividades, tendo sido criada com foco em projetos futuros. Nesse contexto, é classificada como uma “empresa de gaveta”, ou seja, formalmente constituída, porém sem operação efetiva até o momento.
Segundo os advogados, o empresário atualmente exerce atividades no exterior como pessoa física, sem detalhar contratos ou clientes, sob alegação de preservação de privacidade.
No Brasil, o Supremo Tribunal Federal determinou a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Lulinha, a pedido da Polícia Federal e no âmbito da CPI mista do INSS, em fevereiro. A medida, contudo, foi suspensa pelo ministro Flávio Dino e ainda será analisada pelo plenário da Corte.
Dados compartilhados pela Polícia Federal com a CPI indicam que, ao longo de quatro anos, o empresário movimentou cerca de R$ 19,5 milhões, sendo aproximadamente R$ 9,7 milhões em entradas e valor semelhante em saídas.
Em relatório divulgado pelo jornal O Estado de S. Paulo, a Polícia Federal apontou que a permanência de Lulinha no exterior, sem previsão de retorno, pode ser interpretada como uma possível evasão.
"Do ponto de vista investigativo, asseveramos que Lulinha viajou para o exterior, sem previsão de volta, o que denota possível evasão do país, considerando estar associado aos fatos associados ao principal operador das fraudes bilionárias a milhões de aposentados do Brasil", diz o documento.
A ida para a Europa já era conhecida por pessoas próximas ao presidente desde meados de 2025, período em que as primeiras operações sobre fraudes no INSS já haviam sido deflagradas, embora ainda não houvesse associação direta com o empresário.
Especialistas apontam que a permanência no exterior pode dificultar procedimentos investigativos, como cumprimento de mandados ou notificações judiciais. Ainda assim, a defesa afirma que a mudança não tem relação com as investigações e garante que, caso haja determinação do STF, Lulinha retornará ao Brasil para prestar esclarecimentos.
As investigações também analisam relatos de que o lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, teria realizado repasses indiretos ao empresário por meio da empresária Roberta Luchsinger, amiga da esposa de Lulinha, Renata de Abreu Moreira.
Roberta é alvo de investigação da Polícia Federal. Em dezembro, o ministro André Mendonça autorizou buscas na sede de sua empresa, localizada na região de Higienópolis, em São Paulo. Entre os valores sob análise está uma transferência de R$ 300 mil recebida do lobista, que, segundo testemunha, faria parte de um montante maior, estimado em R$ 1,5 milhão, supostamente destinado ao filho do presidente.
A defesa de Roberta Luchsinger afirma que os recursos têm origem em um negócio lícito envolvendo canabidiol. Já os advogados de Lulinha reconhecem que ele realizou uma viagem a Portugal, custeada pelo lobista, com o objetivo de conhecer o projeto.
Pouco antes das operações envolvendo Luchsinger, o empresário promoveu mudanças na estrutura de suas empresas no Brasil. Nas companhias LLF Tech Participações e G4 Entretenimento e Tecnologia, a administração foi transferida para sua esposa. Já na BR4 Participações, ele deixou o quadro societário.
As três empresas estão registradas em um edifício comercial no bairro de Pinheiros, em São Paulo, embora não operem fisicamente no local — situação semelhante à prática de domicílio fiscal adotada em outros casos empresariais.
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da Redação